Estadão

Gravuras de Evandro Carlos Jardim revelam o ‘inferno’ criado por Dante

A história da arte registra bons exemplos de artistas que se debruçaram sobre a Divina Comédia de Dante Alighieri, morto há 700 anos, de seu contemporâneo Botticelli ao romântico francês Gustave Doré e o poeta inglês William Blake, passando pelo acadêmico Bouguereau e o surrealista Salvador Dalí. Agora chegou a vez de o maior gravador vivo do Brasil, Evandro Carlos Jardim, aos 86 anos, ilustrar o Inferno, primeira das três partes do poema épico teológico de Dante.

A convite do editor Luiz Schwarcz, fundador da Companhia das Letras, Jardim aceitou o desafio e expõe, a partir deste sábado, dia 27, na Galeria Leme, o resultado desse gigantesco esforço, numa retrospectiva que percorre toda a obra do artista e professor.

"Luiz esteve em meu ateliê e me fez o convite, que aceitei por dois motivos: a obra de Dante se atualiza a cada momento histórico e a Divina Comédia marcou minha adolescência, também por causa das ilustrações de Doré", diz Evandro. Ele, então, produziu 22 gravuras, reinterpretações de paisagens suas feitas no passado, propondo ao leitor um jogo de associação entre imagem e texto. Mais que ilustrações, essas obras constituem um ensaio visual sobre a jornada espiritual de Dante pelo além-túmulo, tendo como guia o poeta Virgílio, autor do épico Eneida.

Com a delicadeza que é sua marca registrada, Evandro fez algo bem diferente de seus antecessores, mas seguiu mais ou menos os passos de Blake, que, ao se afastar da interpretação teatral de Doré, com todos os seus personagens e paisagens aterradoras, migrou para um atalho menos realista. Evandro resolveu, então, sintetizar a jornada inicial de Dante pelo inferno num embate formal entre luz e trevas. "Do ponto de vista gráfico, eu usei a luz tanto em seu sentido metafórico, como potência da alma, como no físico." Mais sombra que luz, nos nove círculos do inferno, até chegar ao Purgatório e à "luz plena do paraíso".

"Meu ponto de partida foi a criação de Dante, mas tentei representar o inferno de um ponto de vista simbólico, por meio da luz – e a intenção foi, sim, permitir que o leitor faça o ajuste das imagens de acordo com sua sensibilidade." Doré, comenta Evandro, "é muito bom, mas descritivo". Dante estava no exílio quando escreveu o Inferno. Literalmente, sentia-se expurgado do convívio dos seus – e o inferno era o lugar que mais se aproximava da paisagem interior do poeta, a escuridão de uma floresta em que todas as virtudes são confiscadas e trocadas por uma queda fatal. Luz e sombras, como num jogo expressionista, pareceu a Evandro o melhor caminho para não cair na armadilha da ilustração.

"A Divina Comédia impressiona porque ela é sempre atual, levantando grandes questões como a ideia do tempo que dura e se atualiza – e é por essa atualização que podemos ler o poema sem nos apegar a um determinado momento histórico", analisa Evandro, mestre que formou gerações de artistas na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

A exposição na Galeria Lume é aberta no momento em que Inferno, primeira parte da Divina Comédia, chega às livrarias numa nova tradução dos professores Emanuel França de Brito, Maurício Santana Dias e Pedro Falleiros Heise. A capa (a gravura Pranto, de 1970, recriada) não poderia ser mais sintética: é o vale de lágrimas da alma que parte da consciência do pecado para a purificação, enfrentando os nove círculos do inferno. Na mostra estão gravuras e quatro esculturas produzidas pelo artista ao longo de sua carreira, que ultrapassa seis décadas, além de trabalhos inéditos.
As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b>