Um suíço na Osesp

João Luiz Sampaio, especial para o Estado - 11/06/2019 07:00


O maestro suíço Thierry Fischer, de 61 anos, é o novo regente titular e diretor musical da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, em substituição à maestrina norte-americana Marin Alsop, no cargo desde 2012. Ele assume o posto em março do ano que vem, mas, em julho, já faz dois concertos com o grupo, para comemorar os 20 anos da Sala São Paulo. Seu contrato inicial com a Osesp vai até a temporada 2024.

Fischer nasceu em Zâmbia, mas cresceu na Suíça, onde começou sua trajetória como flautista e, mais tarde, passou a trabalhar como regente. Atualmente é diretor da Sinfônica de Utah, no Estados Unidos, posto que deixa em 2022, além de regente convidado principal da Filarmônica de Seul, na Coreia do Sul, até o fim de 2020. Já esteve à frente de grupos como a Sinfônica da BBC do País de Gales, além de reger como convidado grupos americanos e europeus. Tem contrato com o selo Hyperion, com o qual a Osesp deve começar a colaborar durante a sua gestão (atualmente, está gravando ciclos dedicados aos compositores Saint-Saëns e Olivier Messiaen).

Na próxima temporada, ele estará em São Paulo durante oito semanas - o número cresce para 12 a partir de 2021. Em março, ele abrirá a programação com a Missa Solene, de Beethoven, de quem vai reger ainda as oito primeiras sinfonias. "Já trabalhei na Inglaterra, Japão, Coreia, Estados Unidos, tenho uma forte atração por conhecer culturas diferentes", ele diz. "Como suíço filho de franceses, vejo afinidades com a cultura latina", completa, ressaltando que já começou a se familiarizar com a cultura brasileira. "Estou lendo Memorial de Aires, de Machado de Assis."

A relação com a música da América Latina, segundo a orquestra, será um dos focos da gestão do maestro. E foi um dos pilares de um tripé que, segundo Hélio Mattar, membro do conselho administrativo da Fundação Osesp, guiou o comitê de busca, formado por músicos, membros do conselho e convidados internacionais, que já haviam trabalhado com a orquestra na escolha de Marin Alsop, uma década atrás.

"O primeiro aspecto a nos guiar foi o musical, queríamos alguém que tivesse uma boa relação com a orquestra, disposto a evoluir com ela e a ampliar sua programação", diz. "Depois, havia o aspecto internacional, para o qual precisávamos de um regente reconhecido lá fora e com carreira em ascensão, capaz de manter o prestígio do grupo. E, por fim, um artista disposto a se envolver cada vez mais com a cena local", explica.

Novo rumo

Em entrevista no final do ano passado, o diretor executivo da Fundação Osesp, Marcelo Lopes, falava na necessidade de se buscar um regente capaz de estabelecer uma nova relação da orquestra com a cidade de São Paulo, após anos em que o foco havia sido reforçar o nome internacional do grupo, o que teria justificado a escolha de Marin Alsop como titular em 2012. Nesse sentido, a escolha do maestro era, na verdade, mais do que a simples troca de nomes, mas, antes, um redirecionamento no caminho do grupo. "Uma das perguntas que precisamos nos fazer, antes de mais nada, é onde queremos estar daqui a alguns anos", disse.

Por esse viés, a escolha de Fischer surpreende - ainda que seu nome, nas últimas semanas, já viesse crescendo na bolsa de apostas ao lado de maestros como Alexander Shelley e Alexander Liebreich (segundo o comitê, foram seis regentes semifinalistas, reduzidos a dois na grande final vencida por Fischer). Ele fala da "arte pela arte" e não tem no currículo grandes projetos marcados pela associação da música à inserção social - como era o caso de Marin Alsop, ainda que pouco tenha sido feito em sua gestão nesse sentido, como ela mesma reconheceu ao jornal O Estado de S. Paulo em entrevista no ano passado após anunciar o fim de seu contrato com a Osesp.

Mas, ao menos no discurso, Fischer parece afinado a essa ideia. Fala em fixar residência no País, em aprender português; diz que desde a primeira vez que esteve na Sala São Paulo identificou "um lugar onde as portas estão abertas para muitas possibilidades". E afirma entender o momento do concerto como o topo de um iceberg. "O que fazemos no palco é o topo, que é sustentado por programas educacionais, pelo acesso à cultura, apesar da imagem elitista associada à música clássica. São Paulo é uma grande capital, com uma cultura eclética, vibrante, com casas de ópera, teatros, balés, grandes escritores. E acredito que seja possível desenvolver essa coletividade, sendo o mais construtivo possível."

Para Fischer, a música carrega um simbolismo. "Ela une as pessoas, une as diferenças. Atrai o público pela simples noção de beleza. A música carrega uma mensagem de esperança para as pessoas", acredita. O repertório a ser apresentado, portanto, "nunca é inocente". "Música é música, sem barreiras. A temporada de 2020 já está desenhada, mas a partir de 2021 poderei participar desse processo mais ativamente. Tenho muito interesse em todos os tipos de extremos no que diz respeito às obras que escolho. O ecletismo ajuda os músicos a se desenvolver e ajuda também a plateia. Acho interessante, por exemplo, você apresentar uma peça junto com outra criada 80 anos antes e outra 80 anos depois."

E qual o papel exato do regente nessa busca por novos públicos e uma nova relação com a cidade? "O maestro tem de subir ao palco com a missão de manter viva uma atração instintiva pela música. Ele precisa saber criar desejo no palco, mostrar que o concerto é parte de uma ideia mais ampla, que tem a ver com o desenvolvimento de um desejo pela excelência. Precisa mostrar às pessoas que a música que está sendo feita está viva. Gosto de chegar ao momento em que, após ensaiar exaustivamente, você pode começar o concerto sem saber o que vai acontecer."


As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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