Frágeis fiozinhos de vida

Oswaldo Coimbra - 11/08/2019 10:11

colun18 de Guarulhosweb
            No final dos anos 60, as multidões de jovens estudantes – unidos, nas ruas, a operários - não derrubaram os pilares da sociedade capitalista francesa. Mas, forçaram a renúncia do presidente Charles de Gaulle.
 
Nos Estados Unidos, os jovens, empurrados para a morte numa guerra cruel contra o povo vietnamita, conveniente apenas para a indústria armamentista, reagiam queimando documentos de convocação. O que os levava à marginalidade social. Para eles, uma benção. Podiam viver em comunidades alternativas, autossuficientes e libertárias. Onde crescia neles o nojo pela cultura e pela civilização ocidentais, geradoras do arsenal de bombas atômicas capaz de destruir várias vezes o planeta. George Harisson, dos Beatles, apontou-lhes outro caminho, até a sabedoria, calma e profunda, dos orientais.
 
No Brasil, os jovens sufocavam sob a Ditadura Militar. Só tinham três direções: 1º) resistência armada, seguido por muitos universitários, que desembocava em prisão, tortura e morte. 2º) suicídio, praticado pelo poeta Torquato Neto; 3º) recusa da integração social, numa marginalidade, em alguns pontos, semelhantes a dos jovens americanos. Um dos futuros prisioneiros da Ditadura, Gilberto Gil, aos 25 anos, entregue à influência do orientalismo, homenageou-os na letra de “Cultura e Civilização”: “A cultura, a civilização, elas que se danem. Ou não. Somente me interessam, contanto que me deixem ficar com minha vida, na mão”.
 
Naquele ano, era possível perceber, pelas janelas de vidro de seu prédio, na Avenida Marginal, a chegada à Editora Abril dos temidos furgões pretos do DOPS. Com policiais à procura de jornalistas simpatizantes da oposição clandestina. Queriam submetê-los ao tratamento dispensado a Vladmir Herzog. Pelos fios dos telefones internos da empresa corriam alertas angustiados.
 
O prédio, porém, sofria outro tipo de invasão. Em geral, nos horários de almoço, quando aportava ali a comunidade dos Novos Baianos. Ainda recém-chegados a São Paulo, vinham, com fome, da sua grande e modesta casa no Chora Menino. Decididos a filar a refeição oferecida pela Abril a funcionários e seus convidados. Tinham a justificativa de convite, feito, convenientemente, por algum repórter cúmplice, ciente de como era curto o dinheiro que os mantinha. Pois, faziam poucos shows, para não terem de sair do ambiente caseiro, terno, alegre e criativo. Sustentado num tripé: música, maconha e futebol. O que lhes permitia criar obras primas como “Preta, Pretinha”.
 
Paulinho Boca de Cantor, Pepeu Gomes, Galvão, Moraes Moreira, Baby Consuelo e companheiros entravam no refeitório da empresa, inteiramente ocupado por jornalista engravatados. E - barbudos, cabeludos, enrolados em panos -, instalavam nele um silêncio de pura perplexidade. Em contrapartida, deixavam a vivência rebelde que os alimentavam. Em frases, como uma de Paulinho Boca de Cantor: “Nós, seres humanos, somos só frágeis fiozinhos de vida”.
 
(Ilustração: Foto de Baby Consuelo. Atrás dela, Galvão. A seu lado, Moraes Moreira. Atrás dele, Paulinho Boca de Cantor)

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