Poderosa Isis

Luiz Carlos Merten - 12/08/2019 09:30


Numa das cenas mais fortes de Simonal, o longa de Leonardo Domingues que estreou na quinta, 8, Isis Valverde, como Tereza, interpela o marido, Fabrício Boliveira, querendo saber quem é a mulher cujo telefone encontrou num papel com o nome, no bolso dele. A briga é feroz, e é testemunhada pelo filho mais velho do casal. Max de Castro já disse, para o Estado, que, mais do que a performance de Boliveira como seu pai, no palco, ele gostou das cenas domésticas. Boliveira e Isis.

Ambos tiveram preparadores. Na ficção - mas não é só ficção, não -, Tereza abre mão de muita coisa. Sonhos. Vira a esposa, dando conta de três filhos e encarando a infidelidade do marido. Sofre violência doméstica. "O amor pelos filhos segurou muito aquele casamento. Tereza estava grávida quando pegou o marido na lata. Posso sentir como aquilo mexeu com ela. Largo esse cara, desisto de tudo? O filho faz você desistir de muita coisa, e lutar por outras que você não imaginaria. Sei disso por experiência própria. Meu filho (Rael) é meu tudo."

Isis já havia estrelado com Boliveira o ótimo Faroeste Caboclo, de René Sampaio, inspirado na música do Renato Russo. Tinham cenas muito fortes, intensas, de sexo.
Aqui, a situação evolui. Romance, primeiro, briga, depois. "Fabrício ficava todo sem jeito nas cenas de violência. Era agressão emocional, e física. Ele dizia, todo preocupado - Vou te machucar! E eu retrucava - Não importa, mete a mão. Um ator não pode ter medo de expressar as emoções de seu personagem." Tereza, no filme, tem reações extremas. "Tinha transtorno bipolar, que hoje está diagnosticado e é tratado com medicamento. Naquele tempo, reagia como louca. Um dia, no set, me preparando para uma cena, me deu uma dor de cabeça terrível. O Max contou - Mamãe sofria muito de enxaqueca. Incorporei, mesmo sem saber."

Na construção dessa Tereza, ela preferiu não conhecer a original. Mas os filhos - Max, Simoninha, Patrícia - foram preciosos. "Para que a gente entendesse, sentaram e contaram essas histórias muito íntimas. Nunca teve isso não pode falar. Foi tudo exposto, para que a gente fizesse o filme mais honesto, mais verdadeiro possível."

Boliveira disse ao Estado, pegando carona no livro de Ronaldo Bôscoli, que a destruição moral de Simonal foi um caso clamoroso de racismo na MPB. Ele cometeu erros, nos duros anos de chumbo da ditadura, mas um negro chegar aonde chegou, naquele momento, foi demais. "Vieram com tudo para destruí-lo." Tereza foi a personagem invisível dessa história, e agora o filme, e Isis, lhe dão visibilidade. Mais que isso - transparência. "Tereza só viu o filme na pré-estreia. Emocionou-se muito, projetou-se na Isis e viu o marido, o Simonal, no Fabrício", contou o diretor.

Esses dois não se largam - Isis e Boliveira. Ela estará na próxima novela das 9, que vai substituir A Dona do Pedaço, em novembro. Ele fará uma participação. Para Isis não tem essa de protagonista, nem de participação. "O que interessa é se o papel é bom. Tem gente que se consagrou com papel pequeno e gente que se afundou como protagonista." Amor de Mãe está prevista para daqui a três meses, o que significa que as gravações começam logo. Na trama de Manuela Dias, que será dirigida por José Luiz Villamarim, Isis será enfermeira. "É só o que posso dizer. Estou sob embargo, não posso antecipar nada, mas será uma personagem forte, numa trama bacana", ela contou em São Paulo, durante encontro para divulgar Simonal.

Antes, Amor de Mãe chegou a ser anunciada como Troia. Com Isis, também estarão no elenco Regina Casé, Taís Araújo e o naipe masculino, Vladimir Brichta, Murilo Benício, Chay Suede, etc. Serão três protagonistas feministas, cada uma vivendo uma realidade, inclusive econômica. Uma fatura R$ 200 mil por mês, a outra, R$ 20 mil, e a terceira rala para sobreviver com R$ 2 mil.

Retratos do Brasil - isso é o que tem saído na imprensa. Isis leu os capítulos e gostou muito da pegada realista. Mas, como ela diz, "enquanto não começar a gravar não posso dizer como será a personagem. A Ritinha - sereia de A Força do Querer, de Glória Perez, de 2017 - parecia uma coisa no papel e aí, quando cheguei à Amazônia para gravar, a água mudou tudo e a Ritinha virou aquela coisa fantástica, poética. Falei para o Pedro (Vasconcelos, diretor) e a Glória o que estava sentindo. Eles toparam e foi um trabalho que marcou muito, como a Tereza." Entrar nas personagens às vezes pode exigir esforço, renúncia. Isis não tem dificuldade para sair das personagens, mesmo as que marcam? "Ah, isso não. Alguma coisa fica, mas já pensou se fosse carregar todas as minhas personagens? Não sobraria espaço para mim", e ela ri.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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