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Prisão e espancamento de Chico adolescente

O Facebook não é, definitivamente, um bom lugar para quem cultiva o cuidado com as informações que veicula.

Por Oswaldo Coimbra

24 de Fevereiro de 2020 as 09:25

Comprovou, outra vez, uma postagem nele, na qual, como jornalista, tentei mostrar como Chico Buarque conseguiu utilizar uma experiência ruim para criar uma obra. Mencionei sua prisão, em São Paulo, na adolescência, por uso de carro alheio, sem consentimento do dono, para passear, quando foi confundido por policiais com ladrão profissional. Mostrei como aquela prisão havia sido perversa. Não pela detenção policial em si, pois o uso indevido do veículo era infração, sujeita à punição legal, nos termos, claro, apropriados a um menor de idade. Obviamente, a detenção - assustadora e constrangedora – já era punição para um filho de intelectual de alta classe média, como Chico. Mas, ele, ainda, recebeu outra, do delegado de Polícia. Ficou proibido de circular pelas ruas, depois das 22 horas, até chegar aos 18 anos. Nada disto foi descabido. Nem disto, ele teria o direito de ser poupado. 

Perversidade desnecessária e abusiva houve em três fatos paralelos e simultâneos a estes. O mais grave foi o espancamento aplicado a Chico, dentro do camburão, no trajeto até a delegacia. Outro, foi submetê-lo ao humilhante ritual da foto com placa de criminoso afixada em seu peito. E, por fim, a tentativa de impor-lhe um definitivo estigma social de ladrão, feita por um jornalista sensacionalista do Última Hora (mobilizado por alguém da delegacia), no modo como ele noticiou a detenção numa página de seu jornal. 

Do trauma, então, sofrido por Chico nenhuma outra comprovação precisaria ser apresentada. O próprio Chico, quando pode voltar a ele, só quase 50 anos depois, o fez, se pode dizer, de modo barulhento, nada discreto. Pois publicou aquela foto, feita na delegacia, na capa de um álbum, com músicas suas, o Paratodos. E gravou nele uma canção – “A foto da capa” – em que, com seu domínio da linguagem poética, contou como se sentiu precocemente morto, como artista: “Era rala a luz naquele calabouço. Do talento a claraboia se tampara. E o poeta que ele sempre se soubera, claramente, não mirava algum futuro”.

Ainda assim, após postar meu texto, junto com a foto, num espaço do Facebook supostamente reservado aos conhecedores de Chico, fui surpreendido por comentários cheios de agressividade, marcados pela acusação de mentiroso. Gente que assegurou: Chico jamais foi espancado. Para quem frequenta um espaço como aquele e não quer ser visto como fanfarrão idiota e irresponsável este é o tipo de comentário perigoso. Já que tal pessoa tem a obrigação mínima – para ter o direito de fazê-la – de conhecer depoimentos de Chico gravados em vídeos facilmente adquiríveis. Como o Roda Viva, por exemplo, postado no Youtube.