Quinta Feira, 22 de Abril de 2021

Chico Buarque: Aldir Blanc é uma glória

Chico Buarque, jovem, dizia que sua formação literária era mais consistente que seu conhecimento de música.

Por Oswaldo Coimbra

05 de Maio de 2020 as 15:52

Acrescentava que poderia vir a se tornar escritor, um dia. E, não havia sequer começado a escrever suas melhores letras de música. Disse isto, por exemplo, aos 22 anos, no depoimento precocemente prestado ao Museu da Imagem e do Som.

Hoje a contribuição de Chico à Língua Portuguesa está oficialmente reconhecida, no Brasil, e, em Portugal. Como mostrou a outorga a ele do Prêmio Camões, por decisão de um júri de artistas e intelectuais. Poucas pessoas tem a qualificação de Chico para avaliar a produção de outro autor de Língua Portuguesa. Foi com este seu preparo que ele fez a apresentação do autor de “Um Cara Bacana na 19ª”. Uma das dez obras de Aldir Blanc, criador de cerca de 500 letras de músicas. Escreveu: “Aldir Blanc é uma glória das letras cariocas. Bom de ser ler e de se ouvir. Bom de se esbaldar de rir. Bom de se Aldir”.

Nascido em 1946, no Rio de Janeiro, Aldir Blanc, inicialmente dedicou-se ao esforço de compreensão das emoções humanas. Formou-se em Psiquiatra. Depois, começou a expressar nos seus textos o que ele mesmo percebia e sentia, através do radar sensível de um artista. Tornou-se um dos cinco mais importantes letrista do país - registra o excelente Dicionário Cravo Albin de Música Popular Brasileira.

Inesquecível é a criação dele para “Caça à Raposa”. Algo impressionista, como nos habituamos a ver apenas em poemas eruditos e em pinturas refinadas. Jamais em letras de música popular. Nela, há o narrador que fala de uma caçada, ocorrida num país distante, num tempo remoto.

“O olhar dos cães. A mão nas rédeas. E o verde da floresta. Dentes brancos. Cães. A trompa ao longe. A mão na testa. O olhar procura. Antecipa a dor. No coração vermelho. Senhoritas! Seus anéis! Corcéis. E a dor, no coração vermelho. O rebenque estala. Um leque aponta: -- Foi por lá. Um olhar de cão. As mãos são pernas. E o verde da floresta. Oh! manhã entre manhãs! A trompa em cima. Os cães. Nenhuma fresta. O olhar se fecha, numa lembrança. Afaga o coração, vermelho. Uma cabeleira sobre o feno, afoga o coração vermelho. Montarias freiam. Dentes brancos. Terminou. Língua rubra dos amantes! Sonhos sempre incandescentes. Recomeçam deste instante que os julgamos mais ausentes. Ah! Recomeçar, recomeçar! Como canções e epidemias! Ah! Recomeçar! Como as colheitas. Como a lua, e, a covardia. Ah! Recomeçar! Como a paixão. E, o fogo”.

É um privilégio da cultura brasileira poder oferecer às multidões atingidas pela penetração de sua música popular visões poéticas como a de Aldir Blanc.