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Poetas da Música Popular Brasileira

Na curta duração de uma gravação de música popular sobressaem os trabalhos dos intérpretes (cantores e músicos); do compositor; e a participação dos instrumentos.do arranjador

Por Oswaldo Coimbra

15 de Junho de 2020 as 15:31

Na curta duração de uma gravação de música popular – em média, três minutos – sobressaem os trabalhos dos intérpretes – cantores e músicos -; do compositor - criador da melodia -; do arranjador - que decide sobre o andamento da música e a participação dos instrumentos.

O trabalho do letrista é notado apenas por ouvintes atentos. Numa clara injustiça a ele.

Pois, cabe a ele, do ponto de vista estético, enfrentar um grande desafio: o de fugir das frases feitas na abordagem de um tema quase onipresente nas letras. O amor. Um tema essencial à existência humana. Mas, explorado até a náusea.

No entanto, há quem consiga encontrar um modo novo de tratar este tema. E isto precisa ser notado, e, valorizado. Dolores Duran foi um exemplo. Na letra da música “A noite de meu bem”, há uma narradora dedicada a festejar o momento do encontro amoroso, querendo imaginá-lo impregnado com a presença de “A rosa mais linda que houver”. “A primeira estrela que vier”. “A paz de criança dormindo”. “O abandono de flores se abrindo”. “A alegria de um barco voltando”. “A ternura de mãos se encontrando”.

Outro exemplo, bem-sucedido de tratamento desta temática - que, de tão explorada, muitas vezes descamba até o bizarro e a grosseria em muitas músicas de sucesso atuais -, encontra-se no “Poema dos olhos da mulher amada”, musicado por Vinicius de Moraes, com grande força criativa. “Oh, minha amada! Que olhos os teus! São cais noturnos. Cheios de adeus. São docas mansas. Trilhando luzes. Que brilham longe. Longe, nos breus. Quanto mistério! Quantos saveiros! Quantos navios! Quantos naufrágios. Nos olhos teus”.

Há algum tempo, Rita Lee surpreendeu seus fãs com a adaptação de um texto de Arnaldo Jabor, usado por ela como letra de música. Na qual o velho tema do amor foi renovado em sucessivos contrastes de dois elementos envolvidos nele: sentimento e sexo. Diz o narrador: “Amor é pensamento. Teorema. É novela. Sexo é cinema. É imaginação. Fantasia. Amor é Bossa-Nova. Sexo é Carnaval”.

Outros letristas mostram densidade, ao abordarem questões fundamentais para a condição humana, tanto quanto o amor, em oposição ao besteirol, hoje, veiculado, em muitas músicas comerciais. Na letra de “Cajuína”, de Caetano Veloso, o narrador faz a mais inquietante indagação da existência humana: “Existirmos. A que será que se destina?”

Outro tema da com mesma profundidade filosófica e beleza intensa está em “Morro Dois Irmãos”, de Chico Buarque - o Tempo. O narrador diz: “Penso ouvir a pulsação atravessada. Do que foi. E, o que será. Noutra existência. É assim. Como se a rocha dilatada. Fosse uma concentração. De tempo”.

Já Ruy Barata enquadrou sua visão de tempo no cenário amazônico, em “Pauapixuna”, gravada por Fafá de Belém. O narrador começa evocando: “Uma beira de rio. Um cavalo no pasto. Uma égua, no cio. Um princípio de noite”. Prossegue: “E, no silêncio, uma folha caída. Uma batida de remo. A passar”. Para, então, concluir que - naquele ambiente comparado ao do Gênesis, por Euclides da Cunha -: “O tempo tem tempo. De tempo ser. O tempo tem tempo. De tempo dar”.

Tema mais delicado ainda foi enfrentado por Gilberto Gil - Deus. Em “Se eu quiser falar com Deus”, o narrador afirma que nesta empreitada, a de se ter um despojamento próximo à humilhação. E, ainda assim, apenas como condição para entrar numa aposta incerta. Ele diz: “Tenho que ter mãos vazias. A alma e o corpo nus. Comer o pão que o diabo amassou. Lamber o chão. Dos palácios, dos castelos suntuosos. Dos meus sonhos. Caminhar decidido pela estrada. Que ao findar vai dar em nada”.

Não se destinam, apenas, a entreter os ouvintes de música letras como estas. Pois, como diz o narrador de Samuel Rosa, em “Uma canção é p´ra isto”, elas querem “acender o sol no coração da pessoa”. “Clarear a escuridão que o mundo encerra”.