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A história da valentia elegante de Chico

O aniversário de Chico Buarque, neste ano de 2020, ocorre num momento de insuportável tormento para os brasileiros, submetidos a uma pandemia de disseminação alarmante

Por Oswaldo Coimbra

22 de Junho de 2020 as 14:12

O aniversário de Chico Buarque, neste ano de 2020, ocorre num momento de insuportável tormento para os brasileiros, submetidos a uma pandemia de disseminação alarmante ajudada pelo próprio presidente da República que desestimula a adoção de medidas protetivas. Momento trágico de desprezo pela nossa gente. É quando não basta lembrar da postura de solidariedade permanente aos brasileiros desprotegidos mantida por Chico, ao longo de meio século de carreira. Pois, mais reconfortante ainda, neste momento, é tornar pública a nobreza do comportamento dele em muitas ocasiões nas quais ele enfrentou forças poderosas que agem contra os direitos sagrados dos brasileiros, com coragem, sem, porém, alardear isto. 

Por isto, nas próximas colunas, vamos tratar nas próximas colunas deste assunto.

Começaremos, apenas, lembrando do que aconteceu naquela madrugada do final de dezembro de 2015, no Rio de Janeiro. 

Chico acabara de sair do Restaurante Sushi, no Leblon, com quatro amigos, todos de sua faixa etária, quando foi cercado pela hostilidade de um grupo de jovens formado pelo rapper Túlio Dek, o filho do empresário Álvaro Garnero – Alvinho, e, o herdeiro de um usineiro - Guilherme Motta. 

Com Chico estavam o escritor Eric Nepomuceno e os cineastas Miguel Faria Jr., Ruy Solberg e Cacá Diegues. 

Diante da abordagem inoportuna e mal-educada, Chico reagiu com calma, até findar sua paciência. Quando, diante da arrogância do filho do usineiro, Chico lhe disse: “Você é um merda”. Em voz baixa, como quem confidencia um segredo, para não constranger, em demasia, o interlocutor grosseiro. O sujeito alterou seu tom de voz. E, quase, gritando, num estranho tom de mágoa, desafiou: “Eu quero ouvir de sua boca que eu sou um merda”. Chico não lhe deu trela. Ele provocou: “E, quem é do PT, o que é?”. Chico respondeu: “Petista”. Guilherme, então, gritou: “É um merda”.

Nos dias seguintes, o site Viomundo, solidário a Chico, referiu-se a ele, como vítima de playboys. Equívoco bem intencionado. Pois, jamais ele aceita a posição de vítima. Algo, que, naquele incidente, foi descoberto, por ironia, pelo mais raivoso dos inimigos de Chico, na imprensa, àquela altura. Reinaldo Azevedo. Na Revista Veja, ele extravasou seu ódio num artigo, depois de perceber, no vídeo daquela abordagem, acertadamente, que o desabafo, firme mas discreto de Chico, antecedeu à manifestação escandalosa do filho do usineiro. O qual, afinal, dirigiu a palavra ofensiva a quem fosse partidário do PT, sem atingir Chico, que jamais se inscreveu naquele partido. Chico, no entanto, não fez a menor questão de dar realce a isto. 

Este comportamento, de coragem elegante, Chico adotou, sempre, nos perigosos cercos que sofreu na Ditadura Militar. É disto que trataremos nas próximas colunas, como já dissemos.