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Quarenta anos sem o “Poetinha”

Neste julho de 2020, estamos, há 40 anos, privados da presença física de Vinicius de Moraes.

Por Oswaldo Coimbra

30 de Junho de 2020 as 08:11

Embora, a lembrança afetiva de sua figura, reavivada por seus vídeos, se mantenha pulsante entre os brasileiros, de um modo raro na História da Cultura Nacional. Merecidamente. Vinicius foi o único artista, de sua geração, a de fato, viver, por completo, o destino de um poeta, como reconheceu seu mais ilustre confrade e contemporâneo, Carlos Drummond de Andrade.

Mas, apesar do cálido afeto por ele, renovado entre gerações de brasileiros, pouca gente sabe que, dez anos antes de seu falecimento, Vinicius confiou à sua mulher, na época, Christina Gurjão, uma original carta, na qual, proibiu um procedimento habitual, entre aqueles que seriam necessários, após sua morte. Dando tal ênfase à proibição que usou maiúsculas para estabelecê-la. Hoje, em homenagem a ele, vamos transcrever sua carta.

“Escrevo isto, hoje, pensando, é claro, que não aconteça nada. Mas tive uma crise hipertensiva, e se, se vier outra, sempre pode dar num derrame. E, eu posso perder as faculdades de falar ou raciocinar, no sentido do que está exposto aqui.

Se eu ficar inválido, a ponto de não poder me mover e pensar, matem-me, por favor! Eu faria o mesmo por vocês. Palavra de pai, irmão, marido e avô. E até de sogro. Uma injeçãozinha maneira não faz mal a ninguém, numa hora dessas.

Nem me deixem viver cego. Tenho horror a ficar cego, mesmo podendo escrever o ‘Paraíso Perdido’, como fez Milton. Mas eu não sou Milton, nem nada.

E esta é a minha última vontade que, espero, seja para vocês sagrada. NÃO ME ENTERREM. Se houver alguma coisa ‘do outro lado’ – no que, até agora, não consigo acreditar -, eu amaldiçoarei vocês todos, se não fizerem esta última vontade minha.

Peguem meu corpo, joguem-no ao mar. Lá na Avenida Niemeyer, com dois pesos nos pés. Adoraria ser comida de peixe, como foi o Hart Crane.

Ou queimem-me, aí, num mato qualquer, com gasolina. Se não tiverem coragem de fazer isso, contratem um marginal que o tenha, mediante bom dinheiro.

MAS NÃO ME ENTERREM, PELO AMOR QUE VOCÊS TÊM POR MIM.

Em último caso - mas esta não é a minha vontade - mandem proceder a um embalsamento e só me enterrem depois de quarenta e oito horas de embalsamado.

Gostaria de ser velado, nesse caso, pelos estudantes, e que meu coração lhes fosse dado.

E de ser enterrado (depois do embalsamento e das quarenta e oito horas), ao som das escolas de samba e dos choros de Pixinguinha. Mas - insisto - prefiro ser jogado ao mar ou cremado.

E que houvesse alegria e não tristeza. Eu fiz o que pude”.