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'Tendência é que muitos clubes quebrem como o Cruzeiro', diz especialista

futebol; Cruzeiro; Marcos Catão; clube-empresa

Por João Prata

31 de Julho de 2020 as 07:00

Marcos Catão, sócio do CTA Advogados e professor de direito desportivo da Universidade Complutense de Madrid, na Espanha, é o nono entrevistado da série sobre finanças no futebol.

Membro do conselho que elaborou o projeto de clube-empresa no Brasil, ele vê como fundamental para a saúde financeira das equipes a migração de associação civil para sociedade anônima.

"Do jeito que está a tendência é que muitos clubes quebrem como o Cruzeiro.

Como vem acontecendo há tempos.

E acabou também com outros clubes tradicionais, centenários, como a Portuguesa e o América-RJ", declarou o especialista em entrevista ao Estadão.

Como vê a administração dos clubes hoje em dia? O atual estágio, de uma maneira geral, é péssimo.

E a situação se agravou com a pandemia.

Isso no mundo inteiro.

Qual é a saída para essa crise? Os clubes, como associação civil, podem crescer um pouco, claro, mas não existe a menor chance de aumentar consideravelmente o faturamento.

O caso do Flamengo é emblemático, mas é único por causa do tamanho da torcida.

Há outros bons exemplos de administração como a do Ceará, que teve a iniciativa de produzir o uniforme, assim não precisa repassar valor para o fornecedor.

Os clubes se movimentam para criar novas fontes de receita.

Mas os clubes, como associação civil, não têm muitas condições de ir ao mercado.

E isso hoje em dia é fundamental.

A Medida Provisória 984 pode ajudar na saída dessa crise? Essa história de só o mandante receber vai funcionar até a esquina.

Um pouco adiante vai criar o "papagaio de arena", que é o clube ficar esperando que o Flamengo ou o Corinthians venham jogar na sua casa para ganhar um tostão.

Isso só faz aumentar o gap enorme e vai na contramão do Fair Play Financeiro.

A criação da FlaTV, FluTV, CorinthiansTV pode ser boa porque elimina um intermediário, mas é muito pequena ainda.

A saída é o clube se tornar empresa? Acho que a MP do clube empresa não tem que ser obrigatória.

O projeto é muito bom e precisa passar.

Meu medo é que aconteça o mesmo que aconteceu com a reforma tributária do governo, que demore um ano e meio para aprovar e quando chegar, chegue já defasada.

O processo de regulação precisa ser rápido.

Sai com a regulação e depois melhora.

A pior coisa é ficar sem regulação.

Os clubes estão completamente quebrados.

Uma das críticas ao modelo proposto no Congresso é que a Medida Provisória seria só mais uma forma de perdoar as dívidas sem contribuir para de fato organizar a gestão dos clubes.

Seria interessante deixar os clubes escolherem.

Na Espanha, deixaram não aderir ao clube-empresa associações que tiveram superávit nos últimos três anos.

Sobraram quatro clubes: Real Madrid, Barcelona, Osasuna e Athletic Bilbao.

Talvez pudesse incluir isso no Brasil.

Quem está mal das pernas adere e não vai poder ficar financiando a dívida no Profut.

O que acha mais importante nessa mudança? A questão do regime tributário.

Hoje tem discussão.

Clube-empresa coloca alíquota de 5% como se fosse um Simples do futebol.

Hoje não é bem verdade que os clubes não pagam nada de imposto.

Eles pagam a contribuição previdenciária sobre receita bruta, que é 5%, o que não é pouco.

Pagam também contribuição previdenciária para o governo sobre folha de salário, de 4,5%.

Acredito que seja melhor ter regra fixa para todos.

A mudança para o formato S.

A.

pode contribuir para que clubes percam seus nomes tradicionais como aconteceu com o Bragantino, por exemplo? Acho que não.

O caso do Red Bull é pontual, na figura de clube-empresa bem administrado, de uma empresa que quis criar clubes de futebol.

No modelo proposto a intenção é atrair investidor.

Quando tem investidor e diversas formas de receita o patrocinador vai ser mais uma forma de receita.

Num ambiente saudável as rendas correspondentes seriam: 20% arena, 15% patrocinador, 30% de operação de matchday, outras receitas menores.

Patrocinador não tende a ser tão relevante.

Os clubes brasileiros são centenários, torcedores não iriam deixar acontecer.

Até porque também para muitas empresas talvez não seja interessante ficar com o nome vinculado a um clube.

Além da dificuldade com arrecadação, os clubes perdem também muito dinheiro com questões judiciais.

Isso dá para evitar ou é um dinheiro que inevitavelmente o clube vai perder? É absolutamente evitável.

Jogador de futebol tem legislação específica com série de questões.

Quando se negocia um atleta, se destaca a parte bonita que é do ganho, mas não falam da feia.

Quando você faz um longo contrato, de quatro anos, por exemplo, se você manda o jogador embora no meio do contrato você continuará pagando proporcionalmente.

E muito clube faz isso, contrata, dispensa e depois briga na Justiça.

E perde.

Passivo judicial, fiscal e trabalhista é fruto da má administração.

A saída do futebol brasileiro é a aprovação do projeto de clube-empresa.

Mas como Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique seguem sustentáveis como associações? Dá certo porque o sócio desses clubes é o cara que tem cadeira no estádio.

O Santiago Bernabéu tem 78 mil cadeiras, 63 mil são de sócios abonados.

Uma cadeira no Bernabéu vale 1 milhão de euros e tem fila de cem mil pessoas para comprar.

Então no Brasil há mais saídas? Pode ter clubes que sejam viáveis nessa linha de associação civil.

O Brasil tem grande potencial para atrair investidor.

Se houvesse abertura de capital dos clubes, acredito que apareceria gente que compraria R$ 10 mil em ação, R$ 20 mil.

O mercado brasileiro tem no mínimo 100 milhões de pessoas que gostam de futebol.

Tem espaço para abrir mercado de capitais sadio.

Qual sua crítica ao modelo proposto de clube-empresa? Acho que não tem que ter tipo societário único, específico para o futebol.

Não tem um único tipo societário para telecomunicações, para petróleo e gás, por que vai ter para o futebol? O que acha que vai acontecer com o futebol brasileiro se essa lei não for aprovada? Do jeito que está a tendência é que muitos clubes quebrem como o Cruzeiro.

Acabou.

Tem outros exemplos de clubes tradicionais como a Portuguesa, o América-RJ, que acabaram.

A Portuguesa, com o estádio do Canindé, com toda uma comunidade de Portugal no Brasil.

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Bagunça, bagunça e acabou.

O América, clube centenário carioca, com estádio.

A mesma coisa.

Se não houver uma mudança drástica, vários outros vão para o mesmo caminho.