Quinta Feira, 22 de Abril de 2021

Que fizeram com a Pátria de Vinicius?

O jornalista e escritor José Castelo Branco é autor da melhor biografia de Vinicius de Moraes, tema de longa pesquisa desenvolvida por ele. 

Por Oswaldo Coimbra

10 de Agosto de 2020 as 14:47

Em sua obra sobre o poeta, José conta que, no período mais duro da Ditadura Militar, instalada no Brasil em 1964, Vinicius estava se apresentando num teatro em Portugal, quando alguém o alertou: se voltasse para o Brasil ele seria preso. O poeta entrou em desespero. Chegou a falar em se matar, sendo acalmado por seu parceiro naquela apresentação, o genial violonista Baden Powell. 

Os dois, naquela excursão artística pelo Exterior, inclusive em Portugal, sempre reservavam um momento para, no palco, expressar solidariedade amorosa a todos os brasileiros, então vivendo sob asfixia política. Enquanto Baden tocava, baixinho, o Hino Nacional, Vinicius declamava seu tocante poema “Pátria minha” (“Porque te amo tanto, Pátria minha... eu, semente, que nasci do vento... eu, que permaneço em contato com a dor do tempo... Tenho-te, em mim, como um gemido de flor;... tenho-te, como uma fé sem dogma”)

 Naquele período, também Portugal sofria com o domínio de uma ditadura. Lá, sustentada por Antônio Salazar, que contava com simpatizantes na parcela mais conservadora da população. 

Naquele dia, para tormento ainda maior do poeta, um grupo destes simpatizantes - todos jovens estudantes de tradicionais universidades portuguesas, identificados pelas capas escuras sobre seus ombros -, se postou diante da porta por onde ele passaria, ao sair do teatro, com a intenção de vaiá-lo. 

Os acompanhantes de Vinicius aconselharam-no a evitar o caminho que o levaria até aquela porta. O poeta, entretanto, rejeitou o conselho. 

Encarou o grupo de estudantes hostis. E, sem dar tempo a eles, começou a recitar o seu “Poética 1”, no qual assumia, ali, diante deles, sua natureza misteriosa de artista, para que, eles, se quisessem, a vaiassem. Trecho do poema: “Eu morro ontem. / Nasço amanhã. / Ando onde há espaço. / Meu tempo é quando.”

Um deles conhecia o poema, e, embalado por sua beleza, passou a recitá-lo, junto com Vinicius. Seus companheiros silenciaram. E, naquele momento, mudaram de disposição. Vinicius concluiu a recitação do poema. E, com a generosidade típica dos jovens, não só o aplaudiram, como lançaram ao chão suas capas para que o poeta andasse sobre elas.  

Desta “fé sem dogma” na Pátria, expressa por Vinicius, em circunstâncias tão adversas, é necessário lembrar, hoje. Afinal, não podemos nos deixar abater, diante da tragédia histórica pela qual atravessa o País, governado por um genocida, cuja incompetência e irresponsabilidade elevaram a mais de cem mil o número de mortes de brasileiros, pela pandemia. Quando este número poderia ter tido muito reduzido, como ocorreu em quinze países, entre os quais Uruguai, Japão, Nova Zelândia e Austrália.