Quinta Feira, 15 de Abril de 2021

Ofensas à fé de Dona Áurea, não!

O uso do pronome pessoal ‘eu’ é abominado no Jornalismo. Menos quando o profissional escreve sobre algo dramático ocorrido com ele mesmo. Como a perda da fé religiosa, no meu caso.

Por Oswaldo Coimbra

31 de Agosto de 2020 as 11:32

 Aos 17 anos, dirigi aos céus esta mensagem: “Vou me manter distante de qualquer ambiente católico, até sentir anulada em mim toda a influência da minha família. Terei, então, condição psicológica de viver sem religião. E, poderei decidir, livremente, se quero tê-la ou não”.

Estava, na Igreja de São Judas, em São Paulo, consciente de que ainda acreditava existir alguém, no alto, para ouvir a mensagem. Mas precisava saber se não havia sido induzido a acreditar. Uma tremenda angústia. Desde os 7 anos, tinha frequentado a igrejinha de São João, em Belém. Para missas, aulas de Catecismo, Primeira Comunhão. Lá ajudei muitas celebrações de missas, como acólito. E quis ser padre. Entrei para o seminário com 12 anos. 

Há 45 anos, não volto a qualquer templo. No início, por achar frágeis as “provas” da existência de Deus, passei a me declarar ateu. Depois, entendi, teria de buscar outros valores para dar sentido à precariedade da vida. 

No entanto, há poucos dias, escândalos de membros do clero católico me trouxeram esta surpresa: ainda prezo a Igreja. O escândalo do bispo, presidente da CNBB, que quis impor parto forçado à menina de dez anos estuprada pelo tio. E os de três padres. O que declarou: “a menina deve ter gostado de fazer sexo com o tio e deve ter sido bem paga”. O que desejou a morte na pandemia para fiéis ausentes da sua igreja devido ao coronavirus. E o que - mestre em Teologia Moral - agiu de forma tão suspeita na administração dos bilhões de reais doados para a construção da Basílica do Divino Pai Eterno a ponto de ser acusado de cinco crimes por um promotor da Justiça. 

“Esta não é a igreja de Dona Áurea, minha mãe”, pensei. E, para ser honesto, nem aquela que foi minha, onde conheci pessoas dignas, queridas.  

Embora, escândalos não tenham faltado à longa História da Igreja. Vendas de indulgências, Inquisição, exploração colonialista de muitos povos, conivência com as ditaduras franquista e salazarista etc. Mas, esta contraditória igreja, também, deu grandes contribuições à Humanidade, como o apoio essencial às Artes (Música, Pintura, Escultura), a Doutrina Social de Leão XIII, o papado exemplar de João XXIII, a herança humanística presente na Filosofia e na luta por Justiça Social etc. Quantos padres e leigos, no Brasil, foram imolados pela Ditadura Militar, por lutarem pela nossa liberdade?

Assim, conquanto seja ateu, senti tristeza com as ofensas que aqueles religiosos cometeram contra a fé dos católicos.  

(Ilustração: A fé como esteio à fragilidade humana esculpida por Sam Jinks)