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A cidade só para quem a ama

As cidades brasileiras carregaram suas heranças mais consistentes, deixadas por quem as construiu, habitou, e, nelas, desfrutou das alegrias e inquietações, encerradas em cada existência humana.

Por Oswaldo Coimbra

21 de Setembro de 2020 as 14:26

As cidades brasileiras - logo com novos prefeitos -, em algum momento, carregaram suas heranças mais consistentes. Aquelas deixadas por quem as construiu, habitou, e, nelas, desfrutou das alegrias e inquietações, encerradas em cada existência humana. 

Porém, conservar esta preciosa herança nunca foi apenas um ato de respeito a quem não mais vive. E, sim, sobretudo, manifestação de inteligência. Pois, o que, dá identidade a uma cidade, de modo mais saliente, é o conjunto de edificações levantadas com as técnicas e a sensibilidade estética de seus antigos moradores. E que, por isto, se tornaram os cenários dos amores, dos sonhos, das aspirações e frustrações de muitos antepassados das famílias ainda instaladas nela. Algo que jamais pode ser recriado com a mesma força e o mesmo valor de sua autenticidade original. E que marca cada cidade com um ambiente e um tipo de ânimo (de alma) únicos. 

No entanto, para nossa infelicidade, desde os anos da Ditadura Militar implantou-se nas urbes brasileiras uma espécie de Arquitetura da Destruição, que transformou em terra arrasada locais antes acolhedores e densos de significados. Como ocorreu com a Avenida São João, em São Paulo, ferida de morte com uma pavorosa via expressa elevada - obra de 1971, do governador imposto pelos militares, Paulo Maluf. 

Outro exemplo chocante e deprimente é o de Belém, cidade com quatrocentos anos, na quase metade dos quais, capital do Gram-Pará - gigantesco estado, independente do Brasil, dentro do reino português. 

Desde o período do regime militar, em Belém – como de resto, no País todo – ondas periódicas de uma sanha delinquencial, renovada nos mandatos de governantes irresponsáveis, e, movida pela ganância imobiliária imediatista, botam abaixo preciosidades irrecuperáveis do nosso acervo arquitetônico.

O caso de Belém se tornou dramático, nos últimos tempos. Antes mesmo de o Brasil ser vitimado pela pandemia do coronavirus – uma tragédia que, para piorá-la, se agravou na gestão tresloucada do presidente Bolsonaro. Marcada, aliás, não só pela sua incompetência na gerência da saúde nacional, como por seu completo desamor às riquezas culturais, humanas e naturais de nossa gente.

Tal situação é, hoje, asfixiante. Para aliviá-la, se torna imperioso que tenhamos sabedoria na escolha de quem vai administrar nossas cidades. Mais quatro anos de maus-tratos aos espaços físicos históricos que habitamos é, a esta altura, impensável e inaceitável, se quisermos preservar a dignidade de quem descende de pessoas que deixaram, para nossos filhos, suas boas marcas nos municípios habitados por nós.  

Não podemos nos dar o luxo de errar na identificação, entre os candidatos a prefeito, quem, comprovadamente, ame nossa cidade. Não porque diga isto em sua campanha. E sim por já ter demonstrado este amor, ao longo de sua carreira política. 

(Ilustração: Grande Hotel, de Belém, antes de sua demolição, durante a Ditadura Militar, na foto de Takashi Hiratsura, em 1959)