Domingo, 18 de Abril de 2021

A linguagem de paisagem destruída 

A capacidade de estruturação mental dos jovens estava muito baixa, em 1978. Fazia 14 anos que a Ditadura Militar os mantinha privados da liberdade de discutir ideias em grêmios estudantis.

Por Oswaldo Coimbra

06 de Outubro de 2020 as 08:23

Eles eram forçados a consumir músicas, livros, filmes e programas de TV destroçados pela Censura Federal, numa paisagem social que deixou suas digitais na exiguidade dos seus recursos intelectuais. 

Isto veio à tona quando eles tiveram de produzir textos nos exames da Fuvest. Ao estudar 1.500 redações daquele ano, a pesquisadora Maria Thereza Fraga Rocco constatou que apenas 40 tinham alguma originalidade. As demais mostravam perda de nexo lógico entre frases, tautologia (repetição), e, non sense. Mil e trinta e cinco textos estavam infestados de clichês e frases feitas - situação que levou Rocco a cunhar a expressão “crise da linguagem”, com a qual denominou o livro produzido com aquele material. 

Agora, é outro o fenômeno de linguagem, com marcas de uma paisagem social perversa. E está impressa em textos de pessoas com status social, fama, e, poder político.

No dia 26 de março do ano passado, aos 72 anos de idade, o, então, “guru do Bolsonaro”, Olavo de Carvalho, detinha altas condecorações das Força Aérea Brasileira, do Exército e da Assembleia Legislativa do Rio. Na internet, ele postou texto mencionando, além do presidente, um artista 5 anos mais velho que ele, respeitado há meio século: 

“No dia que Bolsonaro se envolver em algum escândalo de corrupção eu chupo o cu do Caetano Veloso”.

O PTB é, hoje, o nosso sexto maior partido, com 1.092.097 filiados, 12 deputados federais, 1 vice-governador, 265 prefeitos e mais de 3.000 vereadores. Seu presidente, Roberto Jeferson, de 67 anos, há 3 meses, mencionou os ministros do Supremo Tribunal Federal Luis Fachi e Luis Barroso, ambos igualmente sexagenários, no Youtube (canal “Questione-se”, do militante bolsonarista Renato Barros), usando estas palavra:

 “Um é o ‘Carmem Miranda’, e, outro é o ‘Lulu Boca de Veludo’. Imagina esta cena: um ministro do Supremo, de quatro. E, um negão: “pá, pu, pu, pufo” nele”.

E mais: há poucos dias, a líder do grupo paramilitar “Os 300 do Brasil”, defensor de Bolsonaro, Sara Winter, divulgou, também pela internet, seu desencanto com o sexagenário presidente, num texto grifado com maiúsculas, em que ela se refere ao general Heleno, de 72 anos, chefe do Gabinete de Segurança de Bolsonaro:

“Vocês sabiam que General Heleno me convocou ao Planalto pra COMER MEU CU, dizendo que jornalistas da Época, da Folha, do UOL, estavam mandando e-mails, se queixando de que nós, os 300 do Brasil, éramos hostis com eles?”

Duas linguagens, duas paisagens. Que paisagens!

(Ilustração: Beirute, na paisagem social da Guerra Civil do Líbano)