Domingo, 18 de Abril de 2021

Jornalista sempre distorce?

O jornalista, para evitar que os dados que colhe sobre um assunto, fiquem soltos, no seu texto, tem de elaborar, com estes dados, uma própria visão sobre aquilo que vai escrever. 

Por Oswaldo Coimbra

13 de Outubro de 2020 as 13:10

Na imprensa, há o conhecido bordão: “só os fatos falam”. Isto significa que o jornalista tem de deixar o fato brilhar integralmente no seu texto, sem distorcê-lo. Para conseguir isto, no entanto, enfrenta um desafio. O de alcançar uma visão sobre seu assunto, dentro da qual, cada dada colhido por ele preserve seu sentido próprio. O que, em última análise, importa em impedir que os dados obtidos passem a ter um sentido novo, dentro do contexto da visão alcançada por ele. 

Será isto possível? Uma declaração, por exemplo, tem sentido autônomo? Ou, quando a colhe, o jornalista, a retira do seu contexto original, e, a insere num novo contexto, o do seu texto, no qual ela, necessariamente, terá sentido diferente? Exemplifiquemos: um político anuncia: “Vou construir 300 escolas”. Esta declaração vale, isoladamente? Ou seu sentido terá de ser buscado em vários contextos? O do orçamento administrado pelo político, o dos seus anúncios habituais, o das ambições eleitorais dele. Cada um destes contextos trará à mesma declaração um sentido diferente, de algum modo. 

Na verdade, o risco de mudança de sentido de um dado - na passagem de seu contexto original, para o do texto jornalístico, - é permanente. E mais: a mudança pode ser tão brutal, a ponto de criar um problema ético. É o que ocorre, quando o entrevistado diz algo sigiloso, de passagem, em confiança ao jornalista, e, ele revela aquilo, no texto que publica, dando-lhe grande realce.  

Mas, ainda que não adquira tanta dramaticidade, decorrente de falta de ética do jornalista, há sempre alguma mudança entre o sentido original de uma declaração e o sentido que ela adquire no texto publicado. Felizmente, em muitos casos, a mudança beneficia todo mundo – o entrevistado, o jornalista e o leitor.  

Imaginemos um repórter que vá escrever sobre área da cidade afetada por todas as mazelas decorrentes da pobreza extrema: desemprego, criminalidade, violência doméstica, doenças, fome etc. E que, no contexto daquela realidade social dura e complexa, algum entrevistado mencione - apenas de modo causal -, uma pessoa que julgue importante para sua comunidade. O jornalista experiente não deixará passar em branco aquela informação ligeira. Ao contrário, a registrará em sua mente. E, com ela, irá em busca daquela pessoa, que, eventualmente, poderá terminar se revelando uma rica fonte de informações. Com o que, aparecerá no texto publicado, num lugar muito mais destacado do que na fala daquele primeiro entrevistado.  

(Ilustração: A atriz Rosalind Russell, no filme “Jejum de Amor”, de 1940)