Segunda Feira, 19 de Abril de 2021

'BBB 21' desperta raiva e preconceito no espectador, indica pesquisa

A atenção do telespectador está voltada aos desdobramentos de cada "treta" que ocorre na casa

Por Ludimila Honorato

16 de Fevereiro de 2021 as 09:31

O BBB 21 estreou há três semanas e já levantou discussões sérias sobre temas como violência psicológica e cultura do cancelamento.

A atenção do telespectador está voltada aos desdobramentos de cada "treta" que ocorre na casa, mas esse interesse tem gerado sentimentos negativos que estão atrelados à saúde mental e emocional de quem assiste. Uma pesquisa realizada pela Hibou, empresa de monitoramento de mercado e consumo, indica que os temas no reality show incomodam e despertam gatilhos. Entre os brasileiros que estão acompanhando o programa (52% de 2.467 entrevistados), 86% afirmam que já sentiram emoções negativas fortes, sendo que raiva, tristeza, preconceito e humilhação têm maior expressividade.

As respostas foram coletadas de forma virtual entre os dias 5 e 6 de fevereiro, em território nacional.

A amostra contou com pessoas acima de 20 anos, englobando o público ABCD, sendo que 56% eram casadas e 58%, mulheres. Com mais de 20 anos no ar, o Big Brother Brasil já faz parte da rotina de entretenimento sazonal da população.

Nos três meses em que fica no ar, o programa pauta a imprensa, as conversas entre amigos e até mesmo quem não assiste tem opinião sobre a atração.

O telespectador está ali para uma espécie de diversão, mas a quebra de uma expectativa positiva acaba provocando sensações contrárias. "O público tem uma noção de que entretenimento é positividade e não mexe com questões que são negativas, como tragédias, discussões, desencontros e brigas.

Mas, de alguma forma, o programa faz tanto sucesso justamente porque a ideia é desvelar, abrir para o grande público a espontaneidade e a vida privada das pessoas e isso lida também com coisas negativas, porque não tem como ter controle", comenta o psicanalista Leonardo Goldberg, doutor em psicologia pela Universidade de São Paulo. Segundo o especialista, a diferença da edição atual do BBB para as anteriores é que, agora, as pessoas estão nomeando e descrevendo os próprios sentimentos quando veem uma situação que causa identificação, seja de alegria ou repulsa.

E diferente de uma novela, em que, na maior parte, os vilões, os mocinhos e as zonas de tragédias são bem definidas, o reality show traz reviravoltas.

Ao perceber que alguém, antes visto como "bonzinho", se revela completamente diferente, o público sente o impacto de modo mais íntimo. "É a quebra de que o entretenimento traria um apaziguamento das paixões, sem brigas nem discussões.

Esse BBB está sendo um balde de água fria, uma quebra de ilusões.

Tem um colapso nessas definições e o espectador fica bagunçado", diz Goldberg.

E como produto cultural de consumo, a atração da TV Globo atrai interesse e desperta prazeres e repulsas, alegrias e tristezas, da mesma forma como quando nosso personagem favorito é assassinado de modo cruel na história de um livro ou o vilão tem vitórias sucessivas em uma série ou filme. Mas o curioso do ser humano é seguir consumindo justamente aquilo que lhe causa desprazer.

A pesquisa da Hibou mostra que apenas 6,7% dos entrevistados estão pensando em parar de assistir ao Big Brother Brasil 21.

Entre os motivos estão: ausência de um clima feliz (51,3%), conteúdo pesado (50,6%), muita discussão boba e pouca diversão (43,8%) e cansaço do assunto de cancelamento (36,9%).

Por que, então, seguimos vidrados? "O espectador está um pouco mais amadurecido em relação a conteúdo que é muito estático, em que ele já sabe o que vai acontecer no final.

Muito do que a gente aclama é aquela velha máxima de: 'tudo o que achei que ia acontecer não aconteceu'.

A graça do reality show são esses movimentos de reviravoltas", responde o psicanalista. Para 51,4% dos entrevistados na pesquisa da Hibou, o que chama atenção no programa, de forma geral, é a possibilidade de bisbilhotar o comportamento das pessoas.

Outros 49,4% disseram que gostam mesmo é dos conflitos por opiniões e atitudes distintas.

Apenas um quarto deles afirma relaxar assistindo à atração e 19,9% dizem que acompanham o reality para ter assunto com os amigos. Uma vez que, em grande parte, o BBB mostra a vida privada e cotidiana das pessoas como ela é, a sensação de pertencimento e identificação faz com que, mesmo sofrendo, o telespectador continue vigiando a casa.

Afinal, ele sabe que também existem problemas e intrigas na vida real.