É interessante ver as elites globais se reunirem em Davos e apontarem a desinformação como uma das maiores ameaças para 2026. Quero dizer, é quase irônico. Afinal, em um mundo onde a política é cada vez mais moldada por narrativas e pela disputa por quem controla a história, a própria ideia de uma verdade universal parece um tanto ingênua.
No entanto, o que realmente se discute ali é a crise da narrativa estatal. Já que, antigamente eram os governos e as grandes mídias tinham o monopólio sobre o que era considerado fato. Eles construíam a história, e a gente, de certa forma, só comprava. Mas, com a proliferação de informações, ou desinformações, nas redes sociais, essa hegemonia ruiu. E aí, quando a verdade se torna uma mercadoria disputada por diferentes atores, cada um com seus próprios dados e versões dos fatos, a coisa fica complicada.
Essa tal de desinformação, que agora é um risco global, não é um fenômeno novo. O que mudou e a escala e a velocidade com que ela se espalha. E, claro, a forma como ela é usada para alimentar a polarização.
Quando a gente não consegue mais concordar nem sobre o que é real, como é que se constrói um consenso?
Está aí uma pergunta que me tira o sono às vezes.
Os dados, que deveriam ser a base da objetividade, também viraram parte do problema. No universo do Big Data, é fácil selecionar os números que confirmam a sua narrativa e ignorar o resto. É uma espécie de curadoria da realidade, onde cada um escolhe a sua bolha de “fatos” e se entrincheira nela.
E aí, quando se tenta apresentar uma visão diferente, ela é automaticamente rotulada como “desinformação” pelo outro lado. É um ciclo vicioso, e parece que estamos presos nele.
Então, quando Davos fala em combater a desinformação, a gente precisa se perguntar. Combater a desinformação de quem?
Não estou defendendo a mentira, longe disso. Mas a questão é que a própria definição de verdade se tornou um campo de batalha. E, enquanto essa disputa pelo monopólio da narrativa continuar, a desinformação vai continuar sendo uma ferramenta poderosa nas mãos de quem quer moldar a a história.
É um jogo perigoso, e, francamente, não vejo um final feliz para ele tão cedo.
Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em Jornalismo de Dados e estrategista em Comunicação Política


