O desaparecimento de uma criança transforma a rotina de uma família em uma corrida contra o tempo. Em meio à procura por informações, cartazes, imagens de câmeras de segurança e mensagens compartilhadas nas redes sociais, permanece uma realidade difícil de dimensionar: milhares de casos continuam sem solução no Brasil.
O mais recente Relatório Estatístico Anual de Crianças Desaparecidas e Localizadas, produzido pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), mostra que 2.293 crianças desapareceram no país em 2025, o equivalente a 6,3 casos por dia.
No mesmo ano, foram registradas 1.824 localizações de crianças. Os números, entretanto, não podem ser simplesmente comparados como se representassem crianças desaparecidas e reencontradas dentro do mesmo período, porque parte das localizações pode se referir a desaparecimentos registrados em anos anteriores.
Mais preocupante ainda é o estoque de casos que permanece aberto: em 31 de dezembro de 2025 havia 14.815 registros ativos de desaparecimento de crianças, classificados pelo Ministério da Justiça como casos em aberto ou não solucionados.
Quantas crianças são encontradas?
Em 2025, as autoridades registraram 1.824 localizações de crianças. O Sudeste respondeu por 727 delas, o equivalente a 39,86%; o Sul teve 576, Centro-Oeste 193, Nordeste 187 e Norte 141. São Paulo foi o estado com maior número de localizações, com 331, seguido pelo Paraná, com 279, e Rio de Janeiro, com 274.
Mas existe uma diferença importante entre “localizar uma criança” e “resolver os desaparecimentos daquele ano”. O relatório criou um recorte específico para saber quantas crianças que desapareceram em 2025 também foram localizadas em 2025. Foram 878 casos nesse recorte.
Os dados disponíveis mostram que não é possível afirmar, com segurança, que a maioria das crianças encontradas retorna para casa logo após o desaparecimento.
O relatório de 2022 já fazia essa ressalva: naquele ano foram registradas 2.169 crianças desaparecidas e 1.237 localizações, mas as localizações não necessariamente correspondiam às crianças que haviam desaparecido naquele mesmo ano. Podiam incluir casos antigos.
A regra mais importante: não esperar 24 horas
Um dos principais obstáculos às buscas ainda é um mito antigo: a ideia de que a família precisa esperar 24 horas para registrar o desaparecimento.
A orientação oficial é fazer o registro do Boletim de Ocorrência imediatamente, assim que o desaparecimento for percebido. A campanha federal “Não Espere 24h” foi criada justamente para combater essa informação equivocada. O BO pode ser feito presencialmente ou, nos estados que oferecem o serviço, pela internet.
Quanto mais informações forem fornecidas às autoridades, maior a possibilidade de orientar rapidamente as buscas: fotografia recente, roupas usadas, último local onde a criança foi vista, características físicas, objetos que carregava, contatos, possíveis destinos e outras informações relevantes.
Alerta Amber
Uma das ferramentas criadas nos últimos anos é o Alerta Amber, voltado a casos recentes e involuntários envolvendo crianças e adolescentes em situação de risco iminente de morte ou lesão corporal grave.
Quando acionado, o alerta pode levar a imagem e informações da criança aos usuários do Facebook e Instagram localizados em um raio de até 160 quilômetros do desaparecimento, por até 24 horas. O acionamento depende das autoridades policiais e de critérios específicos.
Entre agosto de 2023 e julho de 2026, foram emitidos 100 Alertas Amber no Brasil. Nove crianças e adolescentes foram localizados após o acionamento da ferramenta. Atualmente, 26 estados utilizam o sistema; São Paulo é a única unidade da Federação que ainda não havia aderido ao programa, segundo o Ministério da Justiça em julho de 2026.
Em 2026, o programa também começou a ser ampliado para divulgação por meio do aplicativo da Uber, além das redes sociais.
O que uma família deve fazer diante de um desaparecimento
- Não esperar 24 horas. Registrar imediatamente o desaparecimento na Polícia Civil.
- Reunir informações. Levar fotografia recente, documentos, roupas utilizadas, características físicas e informações sobre os últimos locais frequentados.
- Informar o máximo possível sobre a rotina da criança. Escola, amigos, familiares, trajetos habituais e contatos recentes podem ajudar na investigação.
- Procurar hospitais e serviços de emergência, principalmente quando houver possibilidade de acidente ou desorientação.
- Compartilhar informações oficiais. O Cadastro Nacional de Pessoas Desaparecidas permite consultar e compartilhar banners dos casos e encaminhar informações diretamente à Polícia Civil.
- Não tentar investigar sozinho situações suspeitas. Qualquer informação sobre possível paradeiro deve ser encaminhada às autoridades.
- Em situações envolvendo violação de direitos de crianças e adolescentes, o Disque 100 também pode ser acionado. O serviço funciona 24 horas por dia, gratuitamente, e recebe denúncias de qualquer pessoa.


