A trajetória de Renan Hideki Pereira Okado, de 24 anos, ganhou um novo capítulo na Escola Estadual Tomie Ohtake, em Guarulhos. Ex-aluno da instituição, ele retornou à unidade como professor de geografia e foi um dos homenageados no primeiro Prêmio Professor Nota 1.000, promovido pelo Governo de São Paulo para reconhecer docentes da rede estadual.
Nascido em Toyota, no Japão, Renan vive no Brasil desde os 7 anos. Sua relação com a escola começou em 2013, quando ingressou no 6º ano do ensino fundamental. Na época, a unidade ainda se chamava Escola Estadual Parque Continental Gleba I, conhecida na região como “Glebão”. O reconhecimento estadual foi anunciado após a seleção dos mil profissionais com as maiores pontuações em critérios como frequência, avaliação de desempenho e resultados dos estudantes.
Da carteira de aluno à sala de aula
Durante os anos em que estudou na instituição, Renan participou de atividades escolares, competições e olimpíadas de conhecimento. Em 2015, conquistou uma medalha na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Três anos depois, já de volta à escola após uma passagem pelo Instituto Federal de São Paulo (IFSP), tornou-se vice-presidente do Grêmio Estudantil. Em 2018, também participou da votação que definiu o nome atual da unidade. Entre as personalidades apresentadas à comunidade escolar, escolheu a artista nipo-brasileira Tomie Ohtake, com quem se identificava pela origem japonesa. Após concluir o ensino médio, Renan cursou licenciatura em geografia no IFSP, na capital paulista. A formação o levou de volta à escola onde havia estudado, desta vez como professor.
“A opção pelo curso de licenciatura e pela rede pública vem do meu desejo de retribuir à comunidade tudo o que o ensino público me proporcionou. Trabalhar na escola em que estudei torna tudo ainda mais gratificante”, afirmou.
Atualmente, ele leciona geografia para turmas do 6º ano e desenvolve disciplinas eletivas relacionadas às artes e à cultura japonesa no Programa Ensino Integral (PEI).
A realidade dos alunos como ponto de partida
A experiência de ter estudado na mesma comunidade em que hoje trabalha influencia a maneira como Renan organiza suas aulas. Segundo ele, a proximidade com os estudantes e o conhecimento da realidade do bairro ajudam a relacionar os conteúdos escolares ao cotidiano dos jovens.
“Para tornar minhas aulas mais interessantes, tento aproveitar a identificação que os estudantes têm comigo e o fato de, assim como eles, ser morador do bairro, articulando sempre que possível as aulas com o cotidiano e a realidade deles”, contou.
O professor também relata que alguns estudantes já manifestaram interesse em seguir a carreira docente, especialmente nas áreas de geografia e artes.
Cultura japonesa e memória de Guarulhos
A ligação de Renan com o Japão também está presente nos projetos desenvolvidos com os alunos. Em uma das eletivas, intitulada Banzai! Uma introdução à cultura japonesa, as turmas estudaram aspectos históricos e econômicos do país, além de sua relação com o Brasil. A atividade incluiu uma visita ao Museu Histórico da Imigração Japonesa, localizado na Liberdade, na capital paulista. Em 2026, o professor desenvolveu a proposta Mottainai: Ateliê de arte japonesa com materiais reaproveitados. O projeto utiliza o conceito japonês de mottainai, associado à redução do desperdício, para estimular a criação artística com materiais reutilizados. Os estudantes também visitaram a Japan House, na Avenida Paulista.
Outra iniciativa conecta o ensino de geografia à história local. O projeto Córrego (In)visível: Memórias, impactos e futuros possíveis no Parque Continental I investiga as transformações da paisagem e a relação dos moradores com um córrego próximo à escola, aterrado em 2019 para a construção de um empreendimento. A proposta está vinculada à Semana de Geografia da Universidade de São Paulo (USP). A relação de Renan com a instituição também foi marcada por um encontro com Ricardo Ohtake, filho da artista e fundador do Instituto Tomie Ohtake. Durante uma visita à escola, o professor falou sobre sua trajetória como estudante e docente, emocionando antigos professores que acompanhavam o relato.
Prêmio reconhece mil professores da rede estadual
A homenagem a Renan ocorreu na primeira edição do Prêmio Professor Nota 1.000, realizada em 5 de outubro de 2026. A iniciativa selecionou mil docentes entre os 25 mil profissionais reconhecidos anteriormente pelo Prêmio Professor Nota 10. A escolha levou em conta critérios como frequência em sala de aula, avaliação de desempenho e resultados dos alunos no Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp).
Segundo a Secretaria da Educação, 353 dos profissionais homenageados atuam na capital paulista e na Região Metropolitana de São Paulo. Os professores selecionados receberam medalhas durante a cerimônia. A trajetória de Renan reúne o reconhecimento profissional e o retorno à comunidade onde estudou. Ao assumir a função de professor na antiga escola, ele passou a contribuir para a formação de novos estudantes a partir da experiência que construiu na própria rede pública.


