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Opinião – A verdade sob encomenda

À meia-noite da última terça-feira, a cinco dias do segundo turno, o influenciador Felca publicou o vídeo que ele mesmo tinha anunciado com uma frase de suspense: “Eu me escondi por tempo demais”. Parte do público esperava uma denúncia contra Flávio Bolsonaro ou contra Lula. Veio um relato pessoal sobre bullying, fobia social e o uso de álcool para enfrentar eventos. Nenhuma linha sobre a eleição. Mesmo assim, o nome dele liderou os assuntos do X durante a madrugada.

Parece piada. Não é. É o retrato mais limpo da semana. Uma multidão à espera de uma revelação que confirmasse o que já pensava, e frustrada quando o fato não colaborou.

Minha tese é simples. O eleitor brasileiro não deixou de confiar. Mudou o endereço da confiança. Ela saiu da imprensa, da Justiça Eleitoral e das plataformas e foi morar no espelho. Passou a valer como verdade aquilo que se parece comigo.

O tamanho da mudança tem número. Segundo o Digital News Report 2026, do Reuters Institute e da Universidade de Oxford, a confiança dos brasileiros nas notícias caiu de 62% em 2015 para 36% neste ano. Foram 26 pontos em onze anos. Não é um mau humor passageiro com um jornal ou uma emissora. É a demolição lenta da ideia de que alguém, fora da minha bolha, pode me dizer o que aconteceu.

O Dicionário Oxford deu nome a esse fenômeno em 2016: pós-verdade, as circunstâncias em que os fatos objetivos influenciam menos a opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal. Traduzindo, o fato continua existindo, mas perdeu o direito de encerrar a discussão.

Esta eleição acrescenta um paradoxo. Os dois campos desconfiam do árbitro e, ao mesmo tempo, não param de pedir falta.

A campanha de Lula acusou a Meta de favorecer Flávio e obteve do TSE uma ordem de tratamento igual entre os candidatos. A empresa reconheceu falhas técnicas, entre elas um defeito no contador de visualizações do Reels que, segundo a própria Meta, atingiu criadores em mais de cem países. Para uma parte do eleitorado, uma pane global virou prova de perseguição sob medida.

No entorno de Flávio, a velocidade com que um inquérito ligado a um amigo do candidato chegou ao gabinete de Alexandre de Moraes já é lida como sinal de armação, antes de qualquer decisão. O que ainda não aconteceu já tem culpado.

E o mesmo TSE, alvo de desconfiança de lado a lado, foi acionado pelo PL para derrubar publicações de deputados do PT e do PSOL que associavam Flávio a uma operação da Polícia Federal. O tribunal decidiu, por unanimidade, que o conteúdo atribuía crimes ao candidato “sem respaldo fático mínimo”. Quem compartilhou aquelas publicações não precisava de prova. Precisava de repercussão.

O padrão é o mesmo nos dois campos. O árbitro é honesto quando apita a meu favor e comprado quando apita contra.

Isso não é descuido. É estratégia. Quem trabalha com comunicação política conhece o cálculo. Uma base desconfiada é uma base mobilizada. O eleitor convencido de que o sistema está contra o seu candidato compartilha mais, defende mais, dá mais audiência. E ganha de brinde uma vacina contra notícia ruim. Qualquer fato adverso vira ataque do mediador “vendido”. A campanha não precisa mais responder ao conteúdo. Basta desqualificar o mensageiro.

É aqui que a desconfiança vira radicalização. Quando todo fato contrário é classificado como agressão, o eleitor fica imune à correção. Ele não muda de ideia porque não admite mais nenhuma fonte capaz de fazê-lo mudar. A conversa política deixa de ser disputa sobre o que é melhor para o país e passa a ser disputa sobre o que é real. E sobre o que é real não existe meio-termo, só lado.

O teste chega no domingo. As pesquisas da reta final mostram empate técnico, com Flávio numericamente à frente na maioria dos institutos, dentro da margem de erro. Num cenário assim, qualquer resultado será um fato que metade do país receberá como contrariedade. Se o fato perdeu o direito de arbitrar, o placar corre o risco de perder também. Os dois lados passaram semanas ensaiando a explicação para uma eventual derrota. Algoritmo, toga, imprensa. O roteiro da contestação já está escrito. Falta só saber quem vai usá-lo.

O risco maior não é a mentira de um dia. É o hábito. Um eleitor treinado durante semanas para acreditar que todo árbitro é comprado não desaprende na segunda-feira. E a campanha que ensina o seu público a desconfiar de tudo descobre, depois da vitória, que ensinou também a desconfiar dela. Governar com uma base assim é governar sob suspeita permanente, inclusive dos próprios aliados.

Não há solução mágica, e não será a checagem de fatos sozinha que vai devolver ao mediador a confiança perdida. Mas há uma escolha que cabe a quem faz comunicação. Tratar o eleitor como alguém capaz de lidar com um fato que não o agrada.

Felca prometeu sair do esconderijo e falou de si mesmo. Quem esperava a bomba não ouviu o que ele disse. Ouviu apenas a ausência do que queria. Nesta eleição, o fato não perdeu o debate. Perdeu por W.O.

Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em jornalismo de dados e estrategista em comunicação política