Cidades

Ato em Guarulhos reúne mais de cem pessoas em defesa da vida dos povos indígenas

Mais de uma centena de pessoas participaram, no último domingo (1º), de um ato em defesa da vida dos povos indígenas, realizado durante toda a manhã em frente à Igreja Matriz de Guarulhos.

A mobilização reuniu lideranças indígenas e representantes de diversos coletivos sociais da cidade em uma manifestação marcada pelo simbolismo histórico e pela reivindicação de respeito aos direitos dos povos originários.

A escolha da Igreja Matriz como local do ato não foi por acaso. A primeira capela jesuíta da região, construída em 1560 com pau a pique e cipó, está diretamente ligada à formação do aldeamento indígena de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos. Erguida compulsoriamente por mãos indígenas, a construção foi utilizada no processo de catequização dos próprios povos originários.

Para a liderança Day Puri, do povo Puri, a realização da manifestação no local representa um marco histórico de resistência e afirmação da identidade indígena.

“De 1560 até hoje são 466 anos que gritamos por liberdade, de estar na frente da igreja sem retaliações, sem sofrer trabalho escravo. Há uma representação histórica para o povo Puri. Nós dançamos e cantamos na frente da igreja. Fizemos cânticos chamando nossos ancestrais para o lugar do hoje. Será que eles imaginaram, quando sofriam as violências, que algum dia alguém iria levantar o maracá e dizer ‘essa cidade é nossa’?”, questiona.

Ao longo dos séculos a capela passou por transformações. Em 1685 foi elevada à condição de paróquia. Já entre 1741 e 1761 ocorreu a construção do edifício atual, em taipa de pilão, técnica milenar que utiliza terra úmida e selecionada, compactada no interior de estruturas temporárias de madeira ou metal. Em 1981, com a criação da Diocese de Guarulhos, a igreja foi elevada à condição de catedral.

Segundo as lideranças indígenas, um dos principais significados da manifestação está no fato de que foram necessários 466 anos para que o maracá fosse erguido em frente à igreja, em um espaço historicamente marcado pela imposição religiosa e pela violência contra os povos originários.

A mobilização de Guarulhos integrou uma série de manifestações realizadas em diferentes regiões do Brasil na mesma data. No município vivem aproximadamente 1.650 indígenas, contra cerca de 1,7 milhão em todo o Brasil.

Day Puri também destacou a união dos movimentos sociais como um dos fatores que fortalecem a luta indígena na cidade. “Na nossa cidade esses movimentos estão juntos. Hoje somos fortes porque temos o apoio de todos os coletivos sociais, inclusive dos jovens”, ressalta.

O povo Puri mantém encontros mensais voltados à valorização e à preservação de sua cultura ancestral. As atividades incluem conversas na língua originária, preparo de comidas típicas, danças, cantos e outras manifestações culturais.

Violência contra povos indígenas

O ato do domingo ocorreu em um contexto de intensificação das denúncias de violência contra comunidades indígenas em diferentes regiões do país. Ao longo da última semana foram registrados episódios que incluem tentativas de assassinato, atropelamentos e ameaças de envenenamento da água em uma comunidade indígena no município de Tacuru (MS).

Um dos casos de maior repercussão foi o incêndio da residência da rezadeira indígena Ñandesy Roberta, de 90 anos, na Aldeia Jaguapiré, ocorrido em 29 de outubro.

No dia 31 de outubro o governo federal anunciou a ampliação do efetivo e do período de permanência da Força Nacional de Segurança Pública em aldeias Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. A decisão foi tomada após uma série de denúncias de violência contra comunidades indígenas.

Além de Tacuru e da Aldeia Jaguapiré, foram registrados episódios de violência nos municípios de Naviraí (MS), Nioaque (MS), Coronel Sapucaia (MS) e Avaí (SP).

Saiba mais

Para conhecer o trabalho do povo Puri em Guarulhos, acompanhar os encontros culturais e obter informações sobre rodas de conversa e outras atividades acesse o Instagram @associacaotuatuna ou o site tuatuna.com.br.