Estadão

Aldo, o diretor que trouxe os alunos de volta à escola

"É por isso que não me aposento." O diretor Aldo Florentino Alves, de 64 anos, repete a frase algumas vezes enquanto anda pela Escola Estadual Eliza Rachel Macedo de Souza, onde trabalha há 18 anos. Animado, diz que um aluno de 11 anos finalmente está conseguindo ler. E levou para a escola o irmão mais novo de um outro, quando soube que o menino havia abandonado os estudos depois que os pais morreram. Os dois adolescentes estavam vivendo sozinhos. "É por isso que não me aposento."

A Eliza Rachel está fincada na comunidade pobre da Vila Chabilândia, no extremo leste de São Paulo, tem quase 3 mil alunos e fila para entrar. Há anos, as notas de seus alunos ficam acima da média em avaliações nacionais. No primeiro semestre, o <b>Estadão</b> acompanhou a história da escola durante seis meses em suas tentativas de abertura durante a pandemia. No fim de junho, mesmo com protocolos sanitários exigentes e professores assíduos, só 10% dos alunos tinham voltado ao presencial. Havia os que estavam com medo, os que tinham se acostumado com o ensino online, por comodidade ou necessidade de trabalhar, e os que Aldo não encontrava mais.

Seis meses depois, as tabelas caprichadas no computador do diretor mostram que o número se inverteu: 5% não apareceram até o fim do ano. É um número baixo perto dos dados mais recentes sobre evasão no País, com aumento de mais de 100% em relação a 2019. Para Aldo, o momento mais difícil foi quando o governo do Estado determinou em outubro que seria obrigatório todos os alunos voltarem ao presencial. "Tinha pai ligando e dizendo que não ia mandar. No primeiro dia vieram poucos alunos, mas tinham 12 canais de TV aqui." Aldo foi conversando com as famílias e, ao longo da semana, aumentou a presença. Atualmente ninguém mais está no ensino online.

O diretor caminha pela escola com jeito de celebridade, recebe abraços dos alunos, dá tapinhas nas costas, brinca com os meninos no futebol – e dá uma bronca no pedreiro que faz a obra no futuro laboratório de ciências. "Ele fala alto, parece que está bravo, mas logo já está dando risada", conta a vice-diretora Edina Soares de Lima Souza, de 66 anos, que trabalha há mais de 25 com Aldo. "Sua presença é imprescindível na escola."

No fim do ano, com o término das aulas, a escola voltou a ter campeonatos esportivos, famosos no bairro, mas que tiveram de ser interrompidos durante as piores fases da pandemia. Quando a reportagem visitou o local, em dezembro, meninos jogavam bola, o professor de Educação Física apitava, havia adolescentes até pendurados na grade do lado de fora para assistir. "Eles sabem que a regra principal é respeitar o juiz", diz Aldo, que exibe dezenas de troféus na sua sala, ganhos pelas equipes do colégio. "Se não estivessem aqui jogando, iam estar no becos, na rua, nas drogas."

Na sala ao lado, ouvem-se palavrões e tapas da mãe que repreende o filho por ter sido chamada ao colégio porque o menino se envolveu em uma briga em um jogo. "Muitas famílias são assim, não sabem conversar, e esse menino vai ser o que na vida se ninguém conversar com ele? É por isso que não me aposento."

Já faz sete anos que Aldo poderia ter parado de trabalhar, mas ele também dá aulas. É professor de Matemática na rede municipal pela manhã. Sai às 6h30 de casa, na Penha, e só volta perto da meia noite, quando deixa seu posto na Eliza Rachel. Em 2022, pediu para ficar com a turma dos mais novos porque acha que sua experiência pode ajudar a "corrigir a aprendizagem" perdida durante a pandemia. "Eles não aprenderam nem 50% de um ano normal".

<b>CASAMENTO</b>

Aldo diz que não namora e seu melhor amigo é o filho, já adulto, por quem veio para São Paulo há quase 40 anos. A mãe havia trazido a criança de Alagoas. Ele ganhou a guarda e passou a cuidar do filho. "Meu casamento é com a educação. Sonho com meus alunos dando certo na vida". Sobreviveu a um câncer no fígado há alguns anos, pegou covid e continuou trabalhando de casa. Não come açúcar nem toma café e os dias terminam sempre, não importa a hora, com 5 quilômetros de corrida. "Um dia o tempo vai me levar, mas vai ter trabalho." As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b>