Estadão

Com IOF, Ibovespa cai 2,07%, e cede 2,49% na semana

Após o breve respiro da segunda-feira, 13, o Ibovespa emendou nesta sexta-feira, 17, a quarta perda e fechou a semana acumulando saldo negativo de 2,49% no intervalo, vindo de retração de 2,26% e de 3,10% nas semanas anteriores, elevando agora a 6,18% o recuo de setembro, a caminho de seu pior desempenho mensal desde março de 2020, então no auge do pânico de mercado frente ao início da pandemia, quando tombou 29,90% antes de iniciar reação, entre abril e julho seguintes.

Nesta sexta-feira, os temores relacionados à economia chinesa se conjugaram ao inesperado aumento do IOF até o fim do ano, anunciado na noite de ontem como alternativa de financiamento parcial ao Auxílio Brasil, que substituirá o Bolsa Família e cujo fôlego é considerado essencial às chances eleitorais do presidente Jair Bolsonaro, o que reforça a atenção do mercado sobre a situação fiscal.

Assim, o índice da B3 manteve perdas acima de 2% em grande parte da sessão e encerrou o dia em baixa de 2,07%, aos 111.439,37 pontos, no menor nível de fechamento desde 9 de março passado, então aos 111.330,62 pontos. No intradia, foi hoje aos 111.156,65, menor nível desde o último 25 de março, quando chegou durante aquela sessão a 110.926,74 pontos, saindo hoje de máxima, na abertura, aos 113.794,04 pontos. O giro financeiro, reforçado pelo vencimento de opções sobre ações nesta sexta-feira, foi hoje a R$ 45,1 bilhões. O Ibovespa recua 6,37% no ano.

"O aumento do IOF vem numa hora inadequada: a economia apresenta sinais de acomodação do ritmo de crescimento, e provável queda desse ritmo no ano que vem. Estamos falando, no mercado, de um PIB (em alta) de 1% a 0,5% (em 2022), com poucas projeções atuais acima de 1%, o que significa uma desaceleração", observa Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi. "O momento é de ajudar a economia porque, além de uma inflação elevadíssima, e de pressões de custo de energia elétrica, nós temos naturalmente o ajuste da taxa Selic para cima, para tentar combater a inflação do ano que vem e trazê-la para a meta. É uma política equivocada aumentar o custo (de crédito) na economia com inserção de tributos", acrescenta.

"A causa (financiamento ao Auxílio Brasil) é nobre, necessária e bem-vinda, mas devia estar sendo financiada com redução de gastos, e não com aumento de tributação", enfatiza Tingas. "Este aumento de IOF tem dois efeitos: maior custo de crédito, para a pessoa jurídica e a pessoa física, e inflação, mesmo que seja um efeito pequeno", aponta o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento.

"Foram dois pregos no caixão, ontem à noite: o aumento do IOF, que resulta em desaceleração imediata da economia, por meio do crédito, e a aprovação, mais rápido do que se imaginava, da PEC dos Precatórios na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, quando o mercado preferia a opção menos pior, de alternativa negociada via CNJ (Conselho Nacional de Justiça), que parou de andar", diz Flávio Aragão, sócio da 051 Capital, chamando atenção também para o dia de vencimento de opções sobre ações, aqui e no exterior (Nova York), o que naturalmente tende a resultar em mais volatilidade para os preços dos ativos.

No exterior, o sentimento negativo com relação a efeitos sistêmicos negativos decorrentes de dúvidas sobre a solvência da Evergrande, gigante do setor imobiliário na China, permaneceu como pano de fundo para mais um dia de forte correção no minério de ferro, cujos preços no porto de Qingdao já vinham sendo impactados por iniciativas regulatórias das autoridades chinesas para cortar a produção de aço. Nesta sexta-feira, a tonelada de minério teve perda de quase 5%, negociada a US$ 101,95, vindo de queda nas casas de 8% e de 4%, respectivamente, nas duas sessões anteriores.

"Apesar do anúncio de distribuição de dividendos da Vale (R$ 8,10 por ação) oferecer (em tese) sustentação para a Bolsa, o derretimento do minério de ferro e a elevação do IOF para financiar o Auxílio Brasil, que deve elevar as tensões com a política fiscal brasileira, aumentaram os desafios (para o Ibovespa) na sessão", observou em nota a Nova Futura Investimentos. Assim, Vale ON fechou o dia em baixa de 2,02%, a R$ 86,15, acumulando perda de 12,70% em setembro, que reduz a 4,81% o ganho que o papel ainda mantém no ano – na semana, Vale ON cedeu 9,13%.

"O minério de ferro despencou mais de 50% e cruzou o patamar dos US$ 100/ton, prejudicando o desempenho das principais extratoras globais, dentre elas a Vale e a BHP. Para o UBS, a correção foi mais rápida do que o esperado e o banco cortou em 12% o preço-alvo médio do minério em 2022 para US$ 89/ton, uma vez que a redução na demanda chinesa coincide com inventários nos portos 10% maiores no ano contra ano", escrevem em relatório a estrategista de ações Jennie Li e os analistas internacionais Vinicius Araujo e Rafael Nobre, da XP.

Neste contexto, o setor de siderurgia também voltou a ser castigado (Gerdau PN -6,82%, segunda maior queda da carteira Ibovespa na sessão; CSN ON -4,73%; Usiminas PNA -5,31%) e as perdas em Petrobras ON e PN ficaram, respectivamente, em 4,57% (na mínima de hoje no fechamento) e 4,48%, em dia moderadamente negativo para as cotações do petróleo.

Com o aumento do IOF, que passa a vigorar nesta segunda-feira (20) até o fim do ano, o segmento financeiro também esteve entre os perdedores do dia, em baixa de 1,80% (BB ON) a 3,61% (Bradesco PN) entre as maiores instituições. Banco Inter segurou a ponta negativa do Ibovespa na sessão, em queda de 7,02%, à frente de Gerdau PN (-6,82%) e Gerdau Metalúrgica (-5,59%). Na face oposta, Telefônica Brasil (+1,45%), Magazine Luiza (+1,22%) e Natura (+1,14%).

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