Estadão

Governo afegão oferece acordo de partilha do poder ao Taleban

Os negociadores afegãos teriam oferecido ao Taleban a partilha de poder em troca do fim da violência no país, a cerca de duas semanas da conclusão da retirada do país dos militares dos EUA e de seus aliados da Otan, após 20 anos de ocupação. A proposta, ainda não confirmada oficialmente, vem depois de o grupo extremista tomar Ghazni, a apenas 150 km de Cabul, a 10ª das 34 capitais provinciais que passou a controlar na última semana.

À agência France-Presse, uma fonte do governo afegão disse que a proposta para dividir o comando do país foi apresentada aos mediadores do Catar, onde ambos os lados se reúnem para negociações de paz. A informação também foi noticiada pela Al-Jazeera e por uma série de veículos locais, mas os termos apresentados ainda não estão claros. O Taleban, cuja força militar atual talvez seja a maior desde a invasão americana de 2001, também não comentou a oferta.

Os serviços de Inteligência americanos estimam que o grupo extremista poderá cercar Cabul entre 30 e 60 dias e tomá-la em três meses. Com a aproximação do prazo estipulado pelo presidente Joe Biden para a retirada das tropas americanas, em 31 de agosto, o grupo extremista tomou o controle de cerca de dois terços do país, aterrorizando a população e fazendo cerca de 400 mil pessoas deixarem suas casas.

Ghazni, tomada nesta quinta, é a cidade mais próxima da capital sob controle do Taleban, após intensos combates com as forças do governo. A importante região no Sul do país fica na antiga rota entre Cabul e Kandahar, onde os combates também têm sido intensos.

Os extremistas entraram em Ghazni por várias direções e tomaram a maioria dos edifícios governamentais, incluindo a casa do governador e a sede da polícia. Também liberaram centenas de prisioneiros da prisão provincial, entre eles vários de seus soldados.

A queda da cidade foi confirmada à agência EFE pelo subchefe do Conselho Provincial, Amanullah Kamrani, afirmando no entanto que "algumas unidades da polícia e do Exército ainda resistem em algumas áreas ao leste da cidade".

<b>Dez capitais</b>

O porta-voz do Taleban, Qari Yusuf Ahmadi, também confirmou a captura em seu Twitter, afirmando que "dezenas de soldados morreram e um grande número se rendeu". Ele disse ainda que o grupo extremista deu um "passe de segurança" para que as autoridades locais pudessem chegar a Cabul, a primeira vez em que confirmaram abertamente a criação de um corredor do tipo.

Há anos, Ghazni é uma província cujos distritos são, em maior parte, controlados pelo Taleban. Além da cidade, o grupo extremista também capturou nos últimos sete dias as capitais de Nimroz e Farah, no Oeste do país, Jowzjan, Simangan e Sar-e-Pol, no Noroeste, e Baghlan, Takhar, Badakhsahn e Kunduz, no Nordeste.

Há ainda combates em nove das 34 províncias afegãs, onde, segundo o balanço diário do Ministério da Defesa do país, morreram 217 soldados do Taleban e outros 108 ficaram feridos nas últmas 24 horas. Segundo a ONU, mais de mil civis foram mortos no último mês.

O Taleban esteve no comando do Afeganistão entre 1996 e 2001, quando os EUA invadiram o país nas semanas seguintes ao 11 de setembro, dando início à guerra mais longa da História americana. À época, Washington argumentava que o grupo extremista dava abrigo a Osama Bin Laden, o fundador da Al-Qaeda e responsável pelos ataques. Bin Laden só seria morto quase dez anos depois, em maio de 2011, no Paquistão.

Kandahar, onde o grupo diz ter capturado a prisão local, e outras províncias no Sul e no Leste do país sempre tiveram forte presença do Taleban, mas nem mesmo há 20 anos o grupo controlava todo o Norte do afegão, algo que dá sinais de estar determinado a fazer desta vez antes de se dirigir a Cabul.

<b>Preocupações nas fronteiras</b>

O presidente Ashraf Ghani, portanto, volta sua atenção total para proteger a capital e tenta orquestrar uma contraofensiva com o apoio de grupos paramilitares e senhores da guerra para fazer frente aos ataques em áreas urbanas. Antes da fase atual dos combates, Taleban já havia assumido o controle de dezenas de distritos ao redor do país, majoritariamente áreas rurais onde as forças de segurança não têm tanta penetração.

Em uma acordo firmado com os EUA no ano passado, o grupo extremista concordou em não atacar as forças estrangeiras durante a retirada – em troca, se comprometeram a não deixar o país ser usado para o terrorismo internacional. As negociações para um acordo com o governo local, pró-Washington, no entanto, são intermitentes e sem grandes avanços.

Pressionado pela escalada da violência, Biden disse na terça-feira que não se arrepende da decisão de retirar as tropas americanas e disse que os líderes afegãos devem lutar por seu país. A possibilidade de uma retomada do grupo extremista chegar ao poder é vista com reticência doméstica e internacionalmente. Nos países vizinhos, o aumento dos confrontos e do fluxo de refugiados é visto com apreensão.

Postos na divisa com o Irã e Paquistão passaram a ser controlados pelo grupo, servindo como uma forma adicional de receitas para financiar os ataques, enquanto a Rússia anunciou que dará US$ 1,1 milhão para o Tajiquistão construir um novo posto em sua fronteira.

No Ocidente, França, Holanda, Suíça e Alemanha anunciaram que irão suspender as extradições para o Afeganistão. Berlim também disse que não fornecerá qualquer apoio financeiro ao país se o Taleban voltar ao poder e implementar a lei islâmica. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

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