A eletromobilidade já é realidade nos condomínios paulistas, impulsionada pela Lei Estadual nº 18.403/2026, que garante ao condômino o direito de instalar carregadores de veículos elétricos (SAVE) em vagas privativas. A medida é complementada pela atualização da Instrução Técnica 41 do Corpo de Bombeiros. No entanto, esse direito está condicionado à viabilidade técnica e ao cumprimento de normas como a ABNT NBR 5410, NBR 17019/17141 e a própria IT-41, além de exigências futuras mais restritivas, como instalação de sprinklers, detecção, confinamento e ventilação em subsolos.
O ponto central é que a física do incêndio não se adapta à lei: é a edificação que precisa se adaptar ao novo risco.
O incêndio em veículo elétrico difere significativamente do fogo em veículos convencionais. A fuga térmica da bateria gera uma reação autossustentada, com calor intenso e rápido, liberação contínua de gases inflamáveis e tóxicos, e possibilidade de reignição. As temperaturas podem ultrapassar 1.000°C, com duração maior e liberação de calor mais acelerada, reduzindo a eficácia de extintores portáteis e de linhas de água de baixa vazão. Trata-se de um fogo mais persistente e agressivo para a estrutura, instalações prediais e equipes de resposta.
Em garagens subterrâneas ou mal ventiladas, a fumaça torna-se o fator de risco dominante. Pé-direito baixo, grande densidade de veículos e rotas de fuga compartilhadas criam um cenário crítico. A combustão de baterias e materiais associados pode liberar, além de monóxido de carbono, gases corrosivos e altamente tóxicos, causando perda rápida de visibilidade, desorientação e incapacitação, muitas vezes antes mesmo que o fogo se espalhe. A evacuação pode se tornar inviável em poucos minutos.
O impacto térmico sobre a estrutura também é frequentemente subestimado. A proximidade entre vagas e pilares ou vigas expõe elementos estruturais a temperaturas superiores a 500°C em poucos minutos. O concreto inicia degradação relevante a partir de 300°C e perde severamente resistência acima de 500–600°C, com fissuração, spalling e exposição de armaduras. O aço perde resistência a partir de cerca de 400°C, podendo ter redução de quase 50% em torno de 600°C. Um veículo em fuga térmica próximo a pilares, vigas de transição ou lajes pode induzir falhas localizadas, redistribuição não planejada de esforços e, em situações extremas, colapso parcial ou progressivo, sobretudo em subsolos.
A instalação de carregadores também sobrecarrega as instalações elétricas, muitas vezes antigas e subdimensionadas. Sobrecargas, aquecimento de condutores e quadros, degradação de isolação e uso de tomadas comuns como solução improvisada aumentam o risco de curtos-circuitos, arcos elétricos e incêndios em quadros, eletrocalhas e shafts. Esses eventos podem comprometer a alimentação de emergência, ventilação, alarme e bombas de incêndio, gerando efeitos em cascata.
Tubulações em PVC presentes em subsolos são outro ponto sensível: sob altas temperaturas, podem amolecer, deformar, romper e se desprender, danificando outros sistemas. Em travessias de lajes e paredes compartimentadas sem selagens adequadas, a destruição dessas tubulações abre caminhos para o fogo e a fumaça, ampliando o número potencial de vítimas.
Os riscos decorrem da combinação de calor elevado e prolongado, fumaça tóxica confinada e tempo de exposição superior ao previsto em muitos projetos originais, somada à vulnerabilidade elétrica e à quebra da compartimentação. Em campo, são comuns o uso de tomadas comuns para recarga, ausência de circuitos dedicados, exaustão insuficiente, detecção limitada, alta densidade de vagas junto a pilares e tubulações, rotas de fuga parcialmente obstruídas e falta de plano específico para veículos elétricos.
Em incêndios envolvendo baterias, a ação de moradores e brigadas internas é bastante limitada: extintores têm baixa eficácia, o risco de reignição é alto e os gases podem incapacitar rapidamente. A diretriz é clara: o combate deve ocorrer apenas em estágio muito inicial, no interior do veículo e com segurança absoluta. Ao atingir as baterias, a evacuação deve ser imediata, pelas escadas, sem retorno para resgatar veículos ou bens.
A resposta adequada não é proibir a eletromobilidade, mas tratá-la como um problema de engenharia. Isso implica projetos elétricos específicos com circuitos dedicados e proteção adequada, revisão de detecção, alarme, exaustão e compartimentação, avaliação do desempenho estrutural ao fogo (com reforços quando necessário) e gestão ativa, com planos de emergência e treinamento focado.
Os riscos são conhecidos e as soluções técnicas existem. A eficácia delas, porém, depende de rigor na aplicação. A eletrificação das garagens deve avançar sob o princípio fundamental da engenharia de segurança: prevenir é estrutural, reagir é emergencial.



