Estadão

Juros voltam a subir por receios sobre desenho do Auxílio Brasil

Mantidas as incertezas sobre o desenho do Auxílio Brasil, os juros tiveram um dia de volatilidade e fecharam em alta. A demora em se oficializar o programa tem trazido angústia aos investidores, em meio à queda de braço entre a área política e econômica. O mercado já se conformava com a ideia de que as despesas com o programa que ficarão fora do teto de gastos seriam de R$ 30 bilhões, mas o risco de o valor ser maior cresceu da terça-feira para esta quarta-feira, dada a pressão da ala política. Peça fundamental nessa engenharia, a situação da PEC dos Precatórios também continua emperrada, cancelada a reunião da comissão especial da Câmara que analisa o texto.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 subiu de 9,852%, no ajuste anterior, para 9,90%, e a do DI para janeiro de 2025, de 10,896% para 10,90%. A do DI para janeiro de 2027 fechou em 11,27%, de 11,194%.

"Com a inflação rodando alta, o BC atrás da curva, a perspectiva ruim para o fiscal e com uma eleição pela frente, o mercado tem mesmo de botar prêmio", disse o operador de renda fixa da Terra Investimentos Paulo Nepomuceno.

O cancelamento do anúncio do Auxílio Brasil, na terça, deixou o mercado na esperança de que o governo pudesse, após as pesadas críticas, repensar o desenho que previa ao menos R$ 30 bilhões em despesas fora do teto, referentes a uma das parcelas de R$ 100 do auxílio emergencial. Desde a terça à noite, porém, circularam informações de que a ala política defendia R$ 200 no extrateto, o que logo foi associado à suspensão do anúncio.

O secretário especial do Tesouro e Orçamento, Bruno Funchal, disse, no entanto, que o adiamento deveu-se ao desenho exato do programa e a uma tentativa de melhorar a comunicação da medida, mas "não sobre o montante". Segundo ele, os R$ 30 bilhões seriam a "solução final".

Pouco antes do ministro da Cidadania, João Roma, no meio da tarde, começar sua fala sobre "estratégias e rumos" do Auxílio Brasil, o mercado chegou a se animar, com as taxas zerando a alta e ensaiando queda. Mas o movimento durou pouco, na medida em que as declarações, no entender dos agentes, foram inconclusivas. "O mercado melhorou um pouco antes do Roma na esperança que viesse algo, mas foi frustrante", disse um trader.

Roma disse que o governo está atualizando informações sobre programas de transferência de renda e que o Auxílio Brasil será lançado em novembro e que nenhuma das famílias receberá menos que R$ 400. Mas não revelou aquilo que mais o mercado quer saber: quais serão exatamente as fontes de receitas. Disse apenas que tudo será feito com responsabilidade fiscal. "Não estamos aventando que o pagamento desses benefícios se dê por créditos extraordinários", afirmou, sem explicar como isso será possível. O ministro da Economia, Paulo Guedes, no fim da tarde, também garantiu que tudo será feito dentro da estrutura fiscal.

Para o Banco Fator, do economista-chefe José Francisco Lima Gonçalves, o sinal para a aceleração da alta é o viés no balanço de riscos do Copom: o regime fiscal. "Não há alternativa a elevar a Selic em 125 pontos, para 7,50% e sugerir mais 125 pontos em dezembro, antecipando o ciclo que se esperava para 2022 e fechando o ano a 8,75%", destaca o economista, em relatório.

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