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Mapa das enchentes muda em Guarulhos e expõe falhas na manutenção de córregos urbanos

A menos de duas semanas do fim do verão, Guarulhos registrou uma sequência de enchentes e alagamentos provocados pelas chuvas intensas, mas com um cenário diferente do que historicamente marcou a cidade.

Enquanto em anos anteriores os principais problemas estavam concentrados nas áreas cortadas pelo Rio Baquirivu-Guaçu, responsável por cerca de 70% das enchentes do município, neste verão os episódios mais graves ocorreram em bairros centrais e regiões atendidas por córregos urbanos menores, demonstrando falhas da atual gestão do prefeito Lucas Sanches em relação à limpeza e desassoreamento de rios e córregos.

Entre os locais mais atingidos estão Cocaia, Paraventi e Macedo, áreas cortadas pelo córrego dos Japoneses, além da Vila Rio de Janeiro e da região central, por onde passa o córrego dos Cubas.

Alagamento na Vila Rio, que não tem qualquer relação com o Baquirivu

Na última sexta-feira, uma chuva mais intensa provocou novos alagamentos na Vila Sorocabana, onde a água chegou a invadir o prédio da Câmara Municipal de Guarulhos. Na mesma região, as pistas laterais da Rodovia Presidente Dutra ficaram intransitáveis, agravando o trânsito na cidade.

Esses córregos fazem parte de uma rede de drenagem urbana que recebe diretamente a água das chuvas em regiões altamente urbanizadas. Diferentemente do Baquirivu, que possui obras estruturais em andamento, muitos desses cursos d’água atravessam áreas densamente ocupadas e contam com sistemas de drenagem mais antigos, que exigem manutenção constante, o que não estaria ocorrendo na gestão do prefeito Lucas Sanches.

Obras no Baquirivu reduzem impacto na região leste

Enquanto os problemas se concentraram nas áreas centrais, bairros tradicionalmente afetados pelas enchentes do Rio Baquirivu-Guaçu registraram menos ocorrências neste verão.

Regiões como Haroldo Veloso, Cidade Seródio e Malvinas, historicamente associadas a alagamentos, tiveram redução significativa nos registros de enchente.

A mudança está relacionada às obras do projeto Viva Baquirivu, uma das maiores intervenções de drenagem já realizadas na cidade. O projeto prevê ampliação da calha do rio, reorganização da drenagem e recuperação de áreas de várzea para aumentar a capacidade de escoamento das águas.

As obras foram iniciadas na gestão do ex-prefeito Guti, com financiamento internacional obtido junto à CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina), que destinou cerca de R$ 500 milhões ao projeto. Até o final de 2024, cerca de 70% das intervenções já haviam sido executadas, embora o projeto ainda não tenha sido totalmente concluído pela atual administração municipal.

Mesmo assim, algumas vias próximas ao rio, como a avenida Jamil João Zarif, que ainda passa por intervenções, continuam registrando alagamentos pontuais durante chuvas mais intensas.

Falta de manutenção agrava situação em córregos urbanos

Especialistas apontam que os episódios registrados neste verão também expõem problemas na manutenção do sistema de drenagem da cidade.

Córregos como dos Japoneses e dos Cubas, que atravessam regiões densamente urbanizadas, dependem de serviços regulares de limpeza, desassoreamento e manutenção das galerias pluviais para garantir o escoamento adequado das águas. No entanto, os serviços realizados pela Secretaria de Administrações Regionais (SAR) não surtem efeitos.

Moradores e técnicos da área de infraestrutura apontam que a atual gestão municipal tem realizado ações insuficientes de limpeza e manutenção preventiva, o que contribui para o acúmulo de sedimentos, lixo e vegetação nos leitos desses cursos d’água.

Além disso, críticos da administração apontam a ausência de um plano estruturado de enfrentamento às enchentes, com intervenções planejadas para microbacias urbanas que não fazem parte do sistema do Baquirivu. Após mais de 14 meses no cargo, até o momento, Lucas Sanches não apresentou qualquer plano neste sentido.

Outro fator apontado é a falta de uma política mais eficaz de limpeza urbana, já que o descarte irregular de lixo e entulho acaba sendo arrastado pela chuva para bocas de lobo e córregos, obstruindo o sistema de drenagem. Até hoje, o prefeito foi às redes sociais algumas vezes para culpar a população pela sujeira, sem apresentar qualquer medida concreta para resolver o problema.

Caso Cecap chama atenção

Outro episódio que chamou atenção neste verão ocorreu no Cecap, bairro que nunca registou alagamentos em aproximadamente quatro décadas.

Desde dezembro, porém, moradores passaram a enfrentar enchentes após intervenções realizadas pela própria Prefeitura em um terreno pertencente à CDHU, utilizado para a realização do show de aniversário da cidade, o Guarulhos Fest Show, alvo de várias ações judiciais contra o prefeito Lucas Sanches.

No local, a vegetação foi removida e cursos d’água e nascentes foram suprimidos, transformando a área em um grande espaço impermeável. Com isso, a água da chuva que desce de bairros vizinhos deixou de ser absorvida pelo solo e passou a escoar diretamente para ruas e condomínios do Cecap.

Desafio agora é ampliar obras de drenagem

 

O cenário deste verão indica que, mesmo com avanços no sistema do Baquirivu-Guaçu, Guarulhos ainda enfrenta desafios importantes em outras regiões da cidade.

A presença de dezenas de córregos urbanos canalizados ou cercados por ocupação intensa torna o sistema de drenagem vulnerável durante temporais, principalmente em bairros mais antigos e regiões centrais.

Para especialistas em planejamento urbano, reduzir os impactos das chuvas na cidade passa por ampliar as obras de drenagem em microbacias urbanas, fortalecer a manutenção dos córregos e recuperar áreas naturais capazes de absorver parte da água das chuvas.