A gente costuma dizer que o mundo ficou menor, mais conectado, mais integrado. Dados atravessam continentes em segundos, e decisões tomadas em salas com ar-condicionado em Washington ou Pequim mudam a vida de quem nunca esteve lá.
No discurso, vivemos na era da interdependência. Na prática, nunca foi tão claro quem decide e quem apenas reage.
Uma ideia antiga voltou a circular com força, a de que o chamado Sul Global não é um parceiro, mas um problema. Um risco permanente a ser administrado.
Basta observar como grandes decisões internacionais são apresentadas. Sanções, bloqueios, restrições de visto e exigências econômicas vêm embalados em palavras técnicas como estabilidade, governança, segurança, responsabilidade. O vocabulário parece neutro. A mensagem, não!
Certos países são vistos como instáveis demais para merecer confiança plena.
O mundo rico não diz mais que quer mandar. Diz que quer “organizar”. Não afirma que quer controlar. Prefere dizer que quer “ajudar”. Mudou o discurso, não a lógica.
Na prática, o Sul Global quase sempre aparece como ameaça, seja migratória, ambiental, sanitária, econômica, geopolítica. Raramente como solução ou protagonista.
Quando cresce, “preocupa”. Quando quebra, “confirma as previsões”. Quando tenta decidir por conta própria, “vira risco”.
Essa régua é desigual. Se um país europeu entra em crise, é um “desafio”. Se um país africano ou latino-americano entra em crise, é “mais uma prova de que não funciona”. O fracasso no Norte é exceção. No Sul, vira regra.
Essa visão contamina investimentos, acordos, diplomacia, circulação de pessoas. Passaportes viram indicadores morais. Nacionalidades viram sinônimo de desconfiança. Não importa quem você é, mas de onde você vem.
O mais conveniente é que muitos dos problemas hoje jogados nas costas do Sul Global nasceram justamente da ordem internacional construída no Norte. Colonialismo, exploração, intervenções políticas, dependência econômica.
Mas essa parte da história raramente aparece nos relatórios ou discursos oficiais.
O mundo gosta de se dizer pós-colonial, mas continua funcionando com reflexos coloniais. Só trocou a linguagem da dominação pela da gestão.
No fim, tratar o Sul Global como problema é uma forma elegante de o sistema não precisar se explicar. Se algo dá errado, a culpa está sempre no “lugar difícil”, nunca nas regras do jogo.
E assim seguimos vivendo num planeta oficialmente integrado, mas mentalmente dividido, onde alguns países são vistos como parte da solução e outros, simplesmente, como parte do problema.
Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em Jornalismo de Dados e estrategista em Comunicação Política


