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Opinião – Carnaval, política e o país que desaprendeu a conviver

É Carnaval, a maior festa popular do Brasil, um momento de esquecer os problemas e se divertir quatro dias sem descanso. Ou pelo menos era para ser, não é?

Mas, como tudo por aqui, até a folia virou campo de batalha. A Acadêmicos de Niterói, com sua homenagem ao presidente Lula, jogou luz sobre algo que a gente já sabia. A política não tira férias, nem mesmo no Sambódromo!

A homenagem a Lula, um presidente que divide opiniões, foi instantaneamente tratada como uma aberração pela oposição. Não era mais um enredo sobre a história de um líder popular, mas uma “apologia”, uma “afronta moral”, uma “vergonha”. O samba, que deveria ser arte, virou um panfleto, uma propaganda paga com dinheiro público. A escola, que deveria ser cultura, virou um partido.

E aí veio o rebaixamento. Para um lado, foi a “justiça divina”, a “prova” de que a escola “não merecia” estar ali, uma espécie de punição moral por ter ousado homenagear uma figura “abominável”. Para o outro, foi um “golpe”, uma “perseguição política”, uma “censura” velada.
Ninguém, ou quase ninguém, parou para analisar os critérios técnicos da apuração, os décimos perdidos, a evolução, a bateria. O que importava era a narrativa, a validação da própria visão de mundo. É a narrativa levada ao extremo, onde a própria ideia de julgamento técnico é questionada em nome de uma suposta “pureza” ideológica.

E essa engenharia social é perversa. A redes sociais, com seus algoritmos, identificou esse “nervo exposto” da polarização e injetou doses massivas de ódio, de celebração, de indignação. Cada post, cada comentário, cada compartilhamento amplificou a divisão. A apuração do Carnaval, que deveria ser uma festa, virou um segundo turno eleitoral, com torcidas organizadas digitais atacando e defendendo, sem espaço para a nuance, para a complexidade. É a política se transformando em um tribunal midiático, onde a condenação pública é mais importante que a busca por qualquer tipo de verdade ou consenso.

Então, quando a gente vê o samba, a alegria, a cultura, sendo arrastados para o centro da nossa guerra ideológica, talvez seja hora de olhar para além do espetáculo. De questionar a narrativa que nos é imposta. De perguntar quem ganha com essa história de que tudo é política, tudo é ideologia, tudo é guerra? E, mais importante, quem perde, quem tem sua voz silenciada, quem tem sua arte instrumentalizada enquanto a gente se distrai com a cortina de fumaça, com a ilusão de que estamos combatendo o mal, quando na verdade estamos apenas reforçando um sistema que nos mantém reféns, divididos e radicalizados. O samba, que era para unir, virou mais um símbolo da nossa desunião. E isso, para mim, é o verdadeiro rebaixamento.

Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em Jornalismo de Dados e estrategista em Comunicação Política