Por volta das 17h do domingo, o ministro Cristiano Zanin, do STF, emitiu a liminar que estendeu a votação até as 19h. Lula terminou a noite com 4,4 milhões de votos de vantagem sobre Flávio Bolsonaro. Mas aquelas duas horas abriram um buraco que o resultado das urnas não fechará sozinho. Quantas pessoas votaram depois das 17h?
É nesse buraco que a eleição de 2026 continua, porque os dois lados já decidiram que não precisam do número. Cada um escolheu um enredo, e narrativa não espera dado.
A teoria das narrativas, de Aristóteles a Hayden White, ensina que toda história sobre fatos cabe em poucos roteiros, como o épico, o romance, a tragédia e a comédia. Quem conta escolhe o roteiro antes de escolher os fatos. Na política, o roteiro define quem é o herói, quem é o vilão e o que conta como prova.
Flávio escolheu a tragédia. No discurso de domingo, disse que é “impossível reconhecer o resultado” e que nunca vai saber quantos votos teria tido onde as urnas não reabriram. Ele não acusa a urna, como o bolsonarismo fez em 2022. Acusa a toga. O vilão agora é um ministro que foi advogado de Lula, e o herói é um candidato derrubado por uma decisão tomada no fim da tarde. É uma tragédia blindada pelo “nunca vou saber”, que é impossível de desmentir.
Do outro lado, a vitória ganhou roteiro de épico. Alckmin disse que Lula salvou a democracia pela segunda vez. Lula chamou o resultado de derrota do negacionismo e, no discurso da vitória, se referiu ao adversário como “representante genuíno do milicianismo”. Afinal, o épico também precisa de um vilão à altura. Quem vence por 3,6 pontos percentuais não governa uma nação salva. Governa uma nação partida, e a noite de domingo não fez nada para colar as partes.
A crítica à prorrogação tem fundamento. O próprio presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, disse que prorrogar uma eleição é possível, mas precisa ser pensado e estruturado. O especialista em direito eleitoral Alberto Rollo apontou que a decisão criou, na prática, dois grupos de eleitores com prazos diferentes. Vale lembrar que as duas campanhas pediram prorrogação, o PT por causa do transporte público e o PL por causa das chuvas no Sul.
Havia ali um debate institucional sério sobre quem muda as regras do jogo com o jogo em andamento. Virou munição de trincheira. Ao pedir a anulação, Flávio entregou ao governo o melhor pretexto para não discutir o mérito. Qualquer questionamento à decisão de Zanin agora soa como golpismo.
E o número? Para quem trabalha com dados, a pergunta é objetiva. Juristas lembram que anular eleição exige provar prejuízo, não apenas apontar irregularidade. Se os votos do horário extra forem uma fração dos 4,4 milhões de diferença, a tese jurídica morre.
A tese política, não. Um número pequeno não muda nada para quem já decidiu que o problema é o princípio. Se vier grande, o governo ganha a imagem que procura, a do eleitor que ficou sem ônibus de manhã e só conseguiu votar às 18h. O dado vai chegar a uma discussão em que cada lado já sabe o que vai concluir.
Em 2022, a desconfiança mirava a máquina de votar. Em 2026, a urna saiu da conversa e a briga migrou para quem arbitra. É avanço e retrocesso ao mesmo tempo. Quase ninguém discute mais o voto, mas cada vez mais gente discute o juiz.
Vácuo de informação é o melhor adubo para um enredo trágico, e as duas horas sem número renderam aos dois lados mais do que qualquer programa eleitoral. Quem quiser ocupar o centro nos próximos quatro anos terá de fazer o que ninguém quis fazer no domingo, tratar o buraco das 17h como uma pergunta que ainda espera resposta.
No Brasil de 2026, a apuração terminou às 19h. A eleição, não.
Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em jornalismo de dados e estrategista em comunicação política


