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Opinião – O buraco tem fundo

Na segunda-feira, pós eleição, esta coluna perguntou quantos brasileiros votaram depois das 17h no segundo turno. A resposta veio em menos de dois dias e do lugar certo. Do próprio TSE. Foram 34.393 votos. O buraco tem fundo. E é raso.

A diferença de Lula sobre Flávio Bolsonaro foi de 4,4 milhões de votos. Se todos os 34 mil tivessem caído no mesmo lado, o placar de 51,79% a 48,21% mexeria menos de um décimo de ponto.

Ou seja, o efeito real da decisão do ministro Cristiano Zanin está nas seções que seguiram abertas depois das 17h. Está no que a prorrogação causa como narrativa.

O Dicionário Oxford elegeu “pós-verdade” a palavra de 2016 e a definiu como a circunstância em que fatos objetivos pesam menos na opinião pública do que emoções e crenças pessoais. Traduzindo para o eleitor. Não importa o que a planilha mostra, importa o que o grupo já sentia antes de abrir a planilha. O dado do TSE é só uma planilha, mas a desconfiança é um sentimento que se alimenta.

Basta olhar o verbo que Donald Trump escolheu na segunda-feira. A eleição brasileira, disse ele, “pareceu fraudada”. Não disse que foi. Disse que pareceu. Pós-verdade é exatamente isso. A aparência ocupa o lugar da prova, e quem pede prova vira suspeito.

O primeiro a se mexer foi o lado que mais precisava que o buraco fosse mais fundo. Na terça-feira, um dia depois dos dados do TSE começarem a circular, Flávio Bolsonaro deixou o país rumo aos Estados Unidos, após o ministro Alexandre de Moraes determinar a apreensão de seus passaportes em um inquérito sobre lavagem de dinheiro.

Na coluna anterior, falei de dois enredos. Flávio contando uma tragédia, Lula contando um épico. A tragédia acaba de trocar de cenário. Já não é “roubaram a eleição”, é “o perseguido no exílio”. E exílio dispensa estatística. Nenhum seguidor vai pedir ao exilado a soma das seções de São Paulo.

A régua vale para o outro lado. O épico também não precisava do número. Lula respondeu à saída do adversário com “quem não deve, não teme”, que é um veredito moral antes de qualquer sentença. E vale lembrar um dado que os dois lados preferem esquecer. Segundo o TSE, as duas candidaturas relataram dificuldades de transporte no domingo. A prorrogação, que hoje um campo chama de manobra, nasceu de uma queixa compartilhada.

Para quem trabalha com comunicação, a lição da semana é desconfortável. Dado bem apurado resolve processo judicial. Para anular uma eleição é preciso provar prejuízo, e os votos depois das 17h não provam prejuízo diante de 4,4 milhões. Só que dado bem apurado não resolve enredo. Enredo se resolve com outro enredo, e quem chegar primeiro com uma história melhor ocupa o espaço, tenha ou não a planilha a seu favor.

Por isso o número do TSE não vai convencer os convencidos. Ele não vai mudar a crença de quem já decidiu que irá repetir a narrativa em público, na tribuna, no grupo da família, no programa eleitoral de 2028.

Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em jornalismo de dados e estrategista em comunicação política