A gente costuma pensar em fronteiras como muros de concreto ou cercas de arame farpado, mas a verdade é que as barreiras mais eficientes hoje em dia são feitas de papel e burocracia.
O recente congelamento de novos vistos de imigração pelos EUA para o Brasil e outros 74 países é um exemplo perfeito disso. Não é só uma medida administrativa, é a construção de um “muro invisível” que diz muito sobre como as narrativas moldam a política global sem precisar disparar um único tiro.
É curioso observar como esse tipo de decisão é vendida ao público. Geralmente, o discurso oficial vem carregado de termos técnicos, justificativas de segurança nacional ou necessidade de revisão de processos.
No caso específico do governo Trump, a explicação oficial é ainda mais direta. segundo a Casa Branca e o Departamento de Estado, a suspensão dos vistos serve para impedir que novos imigrantes se tornem um encargo público, ou seja, pessoas que poderiam depender de programas sociais dos Estados Unidos.
A medida é apresentada como uma forma de proteger o dinheiro do contribuinte americano e garantir que só entrem no país pessoas consideradas autossuficientes.
Ao colocar o Brasil e dezenas de outras nações em uma espécie de “geladeira” diplomática, a narrativa que se cria é a de que esses lugares representam algum tipo de risco ou instabilidade que o norte global não quer importar. É uma forma sutil, e talvez por isso mais eficaz, de demarcar quem pertence e quem não pertence ao círculo de confiança.
Na prática, isso transforma milhões de pessoas em suspeitas em potencial não pelo que são individualmente, mas pelo país de onde vêm.
Essa medida também traz a tona a farsa da narrativa de globalização que nos venderam por décadas.
Lembra daquela história de um mundo sem fronteiras, de livre circulação de pessoas e ideias? Pois é, parece que essa história só vale quando convém.
O que estamos vendo agora é o retorno triunfal das narrativas protecionistas, onde o isolamento é apresentado como uma forma de proteção. E o mais irônico é que isso acontece justamente em um momento em que estamos mais conectados do que nunca digitalmente.
No fim das contas, o congelamento dos vistos é um lembrete de que a política internacional é um jogo de versões. De um lado, temos o discurso da soberania e da segurança. Do outro, a realidade de milhares de pessoas cujas vidas são afetadas por uma canetada que as rotula como “indesejadas” sem qualquer análise individual.
É o discurso da exclusão ganhando corpo através da burocracia. E, enquanto a gente foca nos muros físicos, o muro invisível vai ficando cada vez mais alto, separando o mundo não por geografia, mas por uma narrativa de medo e desconfiança que, infelizmente, parece estar ganhando o jogo.
Rodrigo Buffo é jornalista, especialista em Jornalismo de Dados e estrategista em Comunicação Política


