A política internacional é feita de histórias. Não de fatos frios, mas de narrativas cuidadosamente montadas para justificar o que se faz ou o que se pretende fazer.
O discurso de Donald Trump após a prisão de Nicolas Maduro, que pudemos acompanhar, é um manual de como transformar uma crise geopolítica complexa em um enredo de filme de ação, onde os papéis de herói e bandido ficam bem definidos.
A primeira coisa que salta aos olhos é a simplificação radical. Trump não se aprofunda no descumprimento de direitos internacionais, na legalidade da ação, na crise humanitária ou na economia venezuelana, isso seria muito chato, muito acadêmico. Ele vai direto ao ponto, a construção do inimigo. A captura de um “narcotraficante que coloca em perigo a juventude americana”.
Mas não para por aí. A narrativa precisa de um herói, e aí entra a narrativa épica. É o bem contra o mal, sem tons de cinza. O ditador é preso, e o herói, no caso, o governo americano, assume o controle para garantir uma “transição segura e adequada”. Essa é a parte mais sutil, e talvez a mais perigosa.
Ao se autoproclamar o gestor da transição, Trump sugere que os EUA possuem o conhecimento e a inteligência necessários para resolver o problema, uma espécie de monitor geopolítico de um “parquinho” chamado América que lhes confere o direito de tutela.
A ação na Venezuela não é um caso isolado, mas um aviso. Afinal, nas palavras de Trump, “o que aconteceu com Maduro pode se repetir com outros líderes mundiais”.
Essa é a expansão da narrativa, transformando a queda de um presidente em um precedente global.
Mas podemos dizer que não é novidade a política externa americana se valer de narrativas para intervir abertamente na América Latina.
Trump não apenas informa sobre a prisão, mas dita o que o público deve pensar sobre o evento. É a narrativa sendo usada para justificar o “excesso”, a pauta é desviada das implicações legais e éticas da intervenção para focar em dois pontos, o triunfo sobre o vilão e a necessidade da tutela americana. Assim Trump cria uma “jurisprudência” para controlar as demais crianças do “parquinho”.
No fim das contas, a narrativa de Trump sobre a queda de Maduro é um exemplo cristalino de como se utilizam enredos simplificados para mobilizar a opinião pública e justificar o poder. Quando crises complexas são reduzidas a contos morais, o público perde a chance de compreender a realidade em sua profundidade. O risco é que a política internacional vire não apenas um roteiro escrito por Trump, mas um espetáculo em que todos nós somos espectadores passivos.


