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Paulistanos contam porque deixam a cidade

Na véspera do aniversário de São Paulo, comemorado em 25 de janeiro, o Movimento Nossa São Paulo divulgou pesquisa do Ibope, feita dias antes, que mostrava que 55% dos moradores da cidade se mudariam para outro município se pudessem

O GuarulhosWeb foi às ruas para saber o que pensam os moradores e também a opinião de quem já deixou a cidade em busca de uma vida melhor. Eles reclamam principalmente do trânsito e da violência. A maioria, porém, mantém os laços com a cidade. Para muitos, morar em outro local e usar a cidade eventualmente ou para trabalho é uma das saídas para não ter de depender tanto da capital.

A pesquisa Indicadores de Percepção da Cidade de São Paulo foi feita com 1.512 paulistanos. Ela mostra como os moradores avaliam o município. Segundo as entrevistas, apenas 32% dos consultados se sentem fazendo parte da cidade e 23% consideram que é apenas um lugar para trabalhar. O restante, 44%, está entre esses dois extremos. Os resultados completos da pesquisa estão disponíveis no site www.nossasaopaulo.org.br.

"A gente acaba se fechando no bairro onde mora"

A veterinária Iara Silveira, 31 anos, considera-se uma pessoa de sorte por morar num bairro com boa qualidade de vida e trabalhar próximo de casa, diante dos problemas de trânsito que São Paulo apresenta. "Tudo é longe. E por não ter boas opções de transporte, acabo ficando fechada no meu bairro."

 

Iara Silveira: "Tudo é longe. E por não ter boas opções de transporte, acabo ficando fechada no meu bairro"  

Iara tem carro, mas muitas vezes tenta o transporte público para não ter dor de cabeça. "Ou ficamos na mão dos flanelinhas ou dos estacionamentos. Então, se insisto no carro, pego carona ou levo mais alguém," sugere. No caso do trabalho na USP, onde faz pesquisas para o projeto de doutorado, Iara opta pelo ônibus que leva um terço do tempo do carro.

A veterinária já morou em outras cidades como Londrina, no Paraná, Santos e Cunha, no interior paulista. Para ela, uma boa ‘saída para quem está insatisfeito é a rotina adotada pela mãe, que mora em Cunha e trabalha em Taubaté. "É um jeito bom de se viver," aposta.

"É chato morar onde todos vivem para o trabalho"

A estudante Erika Sonenberg Moscardi, 19 anos, sente-se incomodada com o clima de São Paulo e gostaria de ir para outro lugar. "Queria um lugar mais calmo. Longe desse caos e da violência" explica Erika, que viveu dois anos no Rio de Janeiro quando era adolescente.

Erika Sonenberg Moscardi: "Queria um lugar mais calmo. Longe desse caos e da violência" 

Diariamente, ela enfrenta, no mínimo, 40 minutos de ônibus de casa, no Jardim da Saúde, para chegar ao colégio onde faz estágio, no bairro de Moema. "Percebo que as pessoas só pensam em pagar contas. Ficam neuróticas e esquecem de viver," analisa.

Érika reconhece que a capital oferece boas opções de descanso e diversão como os museus e o Parque do Ibirapuera, mas essas vantagens não apagam problemas como o da violência, por exemplo. "Há menos de um ano, roubaram meu celular que ainda estou pagando. Fiquei abalada," conta.

"Nasci na capital, mas existe outra opção"

A advogada Renata Teixeira Moraes Amaral nasceu em São Paulo e sempre gostou muito da cidade. Mas começou a mudar de opinião há quatro anos quando se mudou para São Carlos para trabalhar. "No começo, sentia falta do agito da capital", explica.

Renata Teixeira Moraes Amaral: "No começo, sentia falta do agito da capital"

Entre as razões que levaram a advogada a ir para o interior foi a violência. Ela foi vítima de tentativa de assalto no Centro da cidade e, outra vez, roubaram o carro do namorado em frente à sua casa. "Fiquei meio paranóica," conta Renata, que hoje é corregedora da Prefeitura de São Carlos.

No interior, Renata fez um curso de especialização e conheceu o marido. Hoje, está grávida de sete meses e só visita a capital para ver os pais. "Não me imaginava morando fora de São Paulo, mas quando a gente percebe que existe outra opção, escolhe outro local," argumenta.

Segundo Renata, um dos grandes problemas da cidade é o custo de vida. "Para morar lá, não dá para ficar sem carro e uma estrutura econômica para usufruir da cidade. Se não tem dinheiro, fica só no bairro onde vive," explica.

Cidade atrai moradores temporários

Levantamento da Fundação Seade com números do censo demográfico de 2000 mostra que, aproximadamente, 95 mil pessoas que moravam na capital se deslocavam diariamente para outros municípios, por motivo de trabalho ou estudo.

Esse número, porém, é muito menor do que o daqueles que saem de São Paulo para fazer atividades em outros municípios. Pelos números, a capital recebia diariamente mais de 673 mil moradores de outros municípios do Estado para trabalhar ou estudar.

Cerca de 87% desse contingente (591 mil habitantes) residia em outros municípios da Região Metropolitana e 82 mil moravam em outras áreas do Estado.

Esse movimento de entrada e saída é chamado de deslocamento pendular pelos pesquisadores e indica a quantidade desses moradores temporários que a capital ganha ou perde diariamente.

Entre as 82 mil pessoas que entram diariamente na capital provenientes de outras regiões do Estado, o maior grupo vem de municípios que não pertencem a regiões metropolitanas ou aglomerações urbanas (25,3 mil), seguido por aquele de moradores da RM Baixada Santista (14,5 mil), da RM Campinas (11,8 mil), da Aglomeração Urbana de Jundiaí (9,2 mil) e da de Sorocaba (6,1 mil).

Reunindo cerca de 10,9 milhões de habitantes, em janeiro de 2008, a capital paulista é mais populosa do que países como Portugal, Suécia e Bolívia, ou Estados brasileiros como Paraná, Goiás e Ceará. O ritmo de crescimento do município, entretanto, tem passado por mudanças significativas no decorrer das últimas décadas. De 2000 a 2007, o crescimento da população da capital foi de 1,53%, segundo estimativas da Seade.

A região que teria tido o maior crescimento nesse período foi a de Sorocaba, com 1,98%.

Oportunidades de emprego fazem ficar

O engenheiro eletricista e comerciante Walter Zebinden, 59 anos, morador de Campinas, ainda vai a São Paulo uma vez por semana, mas mudou completamente a relação que tinha com a cidade onde morou.

Walter Zebinden: "Enquanto o país não crescer e espalhar as oportunidades, a capital vai ter esse potencial"  

Atualmente, ele só vai à capital para fazer compras para sua loja de roupas e para chegar a São Caetano, onde trabalha em um projeto de mestrado.  Ele diz que, dessa maneira, ficou bem mais difícil sofrer com os problemas da cidade. "Há 15 anos, quando lançaram o celular, eu perdia tempo no trânsito de São Paulo mas podia fazer minhas ligações. Hoje, não podemos usar mais esse período por causa da ameaça dos assaltos e seqüestros", descreve Zebinden.

Em Campinas há cinco anos, o comerciante diz que demora apenas 15 minutos de sua casa ao centro da cidade e que aproveita os tempos livres para andar de bicicleta. "Estou no meio da natureza. A fauna daqui é mais rica que a Chapada dos Veadeiros [Goiás]", aposta o ciclista.

Para ele, São Paulo ainda tem muita importância por causa dos empregos que oferece. "Enquanto o país não crescer e espalhar as oportunidades, a capital vai ter esse potencial". O engenheiro, porém, acredita que os paulistanos, como ele, podem se acostumar com os problemas e manter-se na cidade. "Acredito que acontece como a reação da rã que, quando é colocada na panela, se adapta à temperatura que vai aumentando. Assim, não percebe o risco e acaba morrendo," avalia.

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