O povo Puri lança nesta quinta-feira (3), às 9h, a primeira cartilha indígena bilíngue de enfrentamento à violência doméstica de Guarulhos. A publicação será apresentada na Subsecretaria de Políticas para as Mulheres e reúne informações sobre os diferentes tipos de violência contra a mulher, formas de identificar agressões e orientações para buscar ajuda e proteção. Elaborada por lideranças da etnia, principalmente por mulheres, durante o Agosto Indígena deste ano, a cartilha tem como diferencial a apresentação do conteúdo em português e na língua ancestral Puri. A iniciativa busca, ao mesmo tempo, ampliar o acesso à informação sobre violência de gênero e contribuir para o processo de resgate e preservação da língua originária.
Segundo Day Puri, uma das participantes da elaboração do material, a proposta nasceu da união entre a retomada da língua ancestral e a necessidade de ampliar a conscientização sobre a violência contra as mulheres.
“Quando um povo começa a estudar mais sua língua busca passá-la para a maior quantidade de pessoas possível. Além disso, a violência contra a mulher está cada vez mais presente no país, fatores que ensejaram essa iniciativa”, afirma.
Violência contra mulheres indígenas
Dados recentes de segurança pública mostram um cenário de vulnerabilidade para mulheres indígenas no Brasil. Os registros de violência contra essa população cresceram 258% entre 2014 e 2023, chegando a aproximadamente 4,1 mil casos mapeados. De acordo com as informações apresentadas na iniciativa, cerca de metade das situações graves de violência doméstica e abusos envolvem meninas menores de 14 anos. A violência sexual também aparece entre as ocorrências que mais crescem, afetando de forma significativa crianças e adolescentes. Em áreas de fronteira e na Amazônia Legal, fatores como a atuação ilegal de garimpeiros e madeireiros e o avanço do crime organizado aumentam a vulnerabilidade das mulheres indígenas e podem contribuir para situações de assédio e agressões físicas e sexuais.
A cartilha pretende facilitar o acesso a informações sobre os tipos de violência, além de apresentar telefones e endereços para que vítimas ou pessoas que tenham conhecimento de casos possam procurar apoio.
“Será um material totalmente gratuito e a ideia é que as pessoas não indígenas aprendam com ele, que contém os tipos de violência, como elas acontecem, telefones e endereços para buscar apoio”, diz Day Puri.
Liderança feminina fortalece iniciativa
A criação da cartilha também está relacionada à organização social do povo Puri. Segundo Day, mulheres indígenas podem encontrar obstáculos para denunciar situações de violência quando a liderança da comunidade é exercida por homens, seja por receio ou pela falta de acolhimento adequado. Entre os Puri, a organização social é matriarcal, com as mulheres ocupando posições de liderança, autoridade política e participação nas decisões da comunidade. Para Day, essa característica contribuiu para a criação de uma ferramenta própria de enfrentamento à violência.
“Nenhuma outra etnia de Guarulhos ousou uma iniciativa como essa para não bater de frente com as lideranças masculinas”, afirma.
Além do caráter informativo, a publicação é considerada um marco para a comunidade Puri em Guarulhos por unir o combate à violência contra as mulheres ao fortalecimento da identidade, da memória e da cultura indígena em contexto urbano. A utilização da língua ancestral como ferramenta de orientação e proteção também contribui para a retomada linguística e para a transmissão de conhecimentos entre diferentes gerações, especialmente entre meninas e mulheres Puri.
Distribuição gratuita
Alguns exemplares da cartilha serão impressos e disponibilizados em repartições públicas. A principal estratégia, no entanto, será a distribuição digital e gratuita. A publicação também deverá ser divulgada pela página da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), ampliando o acesso ao conteúdo entre comunidades indígenas e a população em geral.
A cartilha pode ser acessada pelo site Tuatuna, clicando neste link.
Serviço
Lançamento da cartilha bilíngue do povo Puri
Data: quinta-feira (3)
Horário: 9h
Local: Subsecretaria de Políticas para as Mulheres
Endereço: Rua do Rosário, 382, Vila Camargos, Guarulhos
Para obter mais informações acesse https://www.instagram.


