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Seis meses após Guarulhos Fest Show, área do Cecap segue em obras, cercada de questionamentos e sem destino definido

Local  escolhido pelo prefeito Lucas Sanches (PL) para realização do evento em dezembro continua recebendo intervenções, enquanto Prefeitura ainda não esclarece gastos, obras executadas e futuro da área

Passados seis meses da realização do Guarulhos Fest Show, promovido em dezembro de 2025 em área do Cecap cedida pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), o terreno continua sendo alvo de obras e intervenções, sem que haja informações públicas detalhadas sobre os serviços realizados, os custos envolvidos ou mesmo qual será sua destinação final.

Segundo o prefeito Lucas Sanches (PL) divulgou, o evento não teria um centavo de dinheiro público. No entanto, equipamentos da Prefeitura e de empresas terceirizadas que prestam serviços ao município fizeram todo o trabalho de preparação da área e seguem no local.

O que inicialmente foi apresentado pela Prefeitura de Guarulhos como uma oportunidade para sediar um grande evento artístico acabou se transformando em uma das principais polêmicas urbanas do início de 2026, envolvendo ações judiciais, denúncias de impactos ambientais, alagamentos na região e uma série de questionamentos que seguem sem resposta.

Há pelo menos duas ações cíveis populares em andamento na Justiça, com pareceres favoráveis do Ministério Público, que indicou possíveis irregularidades nas ações promovidas pela Prefeitura.

Desde o encerramento da festa, que serviu para comemorar o aniversário de Guarulhos, com shows de artistas famosos como Natanzinho, Ana Castelo, Bruno e Marrone, entre outros, o GWEB acompanha a situação da área, que passou por intensa movimentação de máquinas, terraplanagem e intervenções para viabilizar a realização dos shows.

Evento foi parar na Justiça

Antes mesmo da abertura dos portões do Guarulhos Fest Show, a utilização da área já era alvo de questionamentos judiciais. Houve decisões contrárias tanto do Tribunal de Justiça de São Paulo como do Superior Tribunal de Justiça para a realização do evento.

Área vem ganhando muretas e calçamento junto à rua

A principal discussão envolvia possíveis impactos ambientais decorrentes das obras realizadas para adequação do terreno. Decisões judiciais chegaram a impedir a realização do evento. Até que o Supremo Tribunal Federal , já quando os portões estavam abertos, autorizou, mas com ressalvas e determinações específicas para evitar novas intervenções que pudessem ampliar os danos apontados por órgãos fiscalizadores e moradores da região.

Alagamentos ampliaram a polêmica

Poucas semanas após o evento, moradores e motoristas que circulam pela região passaram a relatar problemas de drenagem e alagamentos em vias próximas ao terreno. Ruas que nunca alagaram em cerca de 40 anos de implantação do bairro ficaram tomadas pela enxurrada, com a água chegando a impedir o trânsito de algumas vias.

Na ocasião, especialistas e moradores relacionaram os problemas às alterações promovidas na topografia da área durante as obras de preparação para o evento. O terreno continha vasta vegetação e cursos d´água. Moradores mais antigos garantiam que havia pelo menos quatro minas de água no local, o que a municipalidade negou.

A situação gerou novos debates sobre os impactos das intervenções realizadas e aumentou a pressão para que a Prefeitura explicasse quais medidas seriam adotadas para corrigir eventuais problemas causados no local.

Obras continuam seis meses depois

Quem passa atualmente pela região encontra um cenário bastante diferente daquele visto após o encerramento do festival. Desde o início do ano, o terreno segue recebendo movimentação constante de máquinas e trabalhadores.

A grande área vazia, mesmo em obras, deu lugar a centenas de pessoas que utilizam o local nos finais de semana para empinar pipas, por exemplo.

No entanto, não existem placas informativas indicando a natureza das obras, os responsáveis técnicos, os valores investidos ou o prazo de conclusão dos serviços, como normalmente ocorre em obras públicas.

Moradores ouvidos pelo GWEB afirmam que as atividades ocorrem praticamente de forma contínua há meses, sem que haja qualquer comunicação oficial sobre o que está sendo executado. Muitos mostram descontentamento com a Prefeitura e com a Justiça, que não impediu a realização do evento em dezembro e não puniu até hoje os possíveis excessos cometidos pelos responsáveis.

Também chama atenção o fato de que as empresas observadas no local seriam as mesmas que participaram da estruturação do espaço para o Guarulhos Fest Show, contratadas por meio de prestadores de serviço vinculados à Prefeitura.

Perguntas seguem sem resposta

Diante da continuidade das intervenções, o GWEB encaminhou uma série de questionamentos à Prefeitura de Guarulhos.

Entre eles:

  • Quem são os responsáveis pelas obras atualmente realizadas no local;
  • Qual o objetivo das intervenções iniciadas após o evento;
  • Quanto foi gasto na preparação da área para o Guarulhos Fest Show;
  • Quanto já foi desembolsado posteriormente para obras de correção ou adequação;
  • Qual será a destinação definitiva do terreno;
  • Se a Prefeitura mantém a posse da área após o término do prazo inicial de cessão;
  • Como está o processo de permuta anunciado entre Município e CDHU;
  • Quanto os organizadores do festival investiram ou ressarciram aos cofres públicos;
  • Se há previsão de novos eventos naquele espaço.

Até o fechamento desta reportagem, não houve resposta da administração municipal.

A Prefeitura se limitou a informar que estaria levantando as informações para posteriormente dar a resposta, o que não ocorreu, após vencer dois prazos dados pelo GWEB.

CDHU confirma renovação da cessão

Procurada pelo GWEB, a CDHU informou que o terreno faz parte de um acordo de compensação tributária envolvendo débitos de IPTU e que o processo de transferência definitiva da área ainda está em tramitação.

Segundo a companhia estadual, houve inicialmente uma cessão temporária de seis meses para utilização do espaço pela Prefeitura. Posteriormente, em 5 de maio deste ano, a autorização foi renovada por mais um ano.

Em nota, a CDHU esclareceu que a responsabilidade sobre a utilização da área cabe integralmente ao Município.

“A responsabilidade e discricionariedade sobre o uso do terreno, seja durante a cessão precária ou após a cessão em definitivo, é da Prefeitura”, informou a companhia.

A estatal também confirmou que o terreno integra uma negociação para remissão de dívidas tributárias municipais, processo que ainda depende de tramitação administrativa.

Sem definição pública para o futuro

Enquanto máquinas continuam trabalhando no local e a população da região convive com dúvidas sobre os impactos das intervenções, o futuro da área permanece indefinido.

O espaço já foi apontado informalmente como possível local para novos eventos, equipamentos públicos ou projetos de desenvolvimento urbano, mas nenhuma dessas hipóteses foi oficialmente confirmada pela Prefeitura.