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Tite saboreia o momento no Corinthians hexacampeão brasileiro e quer mais em 2016

Tite é hoje o maior ídolo da torcida do Corinthians. É o seu nome que a Fiel grita mais forte nos jogos no estádio Itaquerão, mais até do que os de Renato Augusto, Jadson ou Cássio, alguns dos destaques da conquista do hexacampeonato brasileiro. E não é por menos: o técnico já ergueu seis taças pelo clube – Campeonato Brasileiro (2011 e 2015), Copa Libertadores (2012), Mundial de Clubes da Fifa (2012), Campeonato Paulista (2013) e Recopa Sul-Americana (2013). É o treinador mais vitorioso da história do clube de Parque São Jorge.

Por isso, a Agência Estado propôs uma entrevista diferente para ele. As perguntas foram feitas por seguidores do jornal nas redes sociais. Por meio do Twitter, Facebook e Instagram, os torcedores enviaram as perguntas para o treinador. Tite aprovou a ideia. “Gosto de ser pego de surpresa. As respostas ficam mais naturais”, disse.

Empolgado e de bom humor, o treinador até citou trechos de uma música de Raul Seixas durante a entrevista no CT do Parque Ecológico, na zona leste de São Paulo. “Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”, cantou.

Gleison Borges – Se surgir um convite para a seleção brasileira, você aceita?
Tite – Estou muito feliz aqui no Corinthians. Já respondi 300 vezes sobre isso e não vou falar mais nada. Qualquer coisa que eu falar daqui pra frente vai dar dupla interpretação. Meu momento na seleção brasileira já passou e era lá atrás.

Rogério Rodrigues Silva – Recentemente você deu uma entrevista em que mencionava que um dos méritos do Corinthians foi o jogo sério e respeitoso com os adversários. Na sua opinião, esse respeito à equipe adversária é o conselho mais precioso a ser seguido por treinadores e jogadores no futebol brasileiro?
Tite – Isso é o que eu considero mais importante sob o ponto de vista ético, educacional e de dar exemplo aos demais. Você pode curtir, vibrar com o seu trabalho, ter a ambição de ser o melhor, mas tem de respeitar o outro lado.

Paula Oliveira – Qual foi a sensação de ganhar de 6 a 1 do São Paulo com o time reserva? Teve um gostinho diferente?
Tite – Para mim, a escalação não tem jogadores mais ou menos importantes. O time todo fez uma campanha extraordinária, alternando os titulares. Não julgo quem é melhor, mas quem está num momento melhor. Ao longo do campeonato, mais de 20 atletas fizeram gol. Isso é senso de equipe. O gosto diferente do jogo contra o São Paulo foi ter sido o nosso primeiro título na arena. Depois do Hino Nacional, a torcida começou a cantar logo em seguida. Aquilo me arrepiou. Olhei para o lado e, no mesmo momento, o Vagner Love também olhou para fim. Falei para ele: Isso aqui está demais. Uma vitória, dentro do nosso estádio, naquele clima, foi impressionante.

Thiago Saadeh Albuquerque – Professor Adenor, qual foi o segredo para conseguir manter o elenco nas mãos após as eliminações no Paulista, Libertadores e Copa do Brasil, além dos meses em atraso nos salários?
Tite – Existe um clichê que diz que o técnico tem o elenco nas mãos. É mentira! Esse é um clichê mentiroso. Quem tem na mão é o clube. Atleta, técnico e funcionários têm de ter respeito à entidade. Claro que o treinador faz parte, mas existe uma hierarquia no clube. A diretoria transmitiu confiança para todos aos atletas pelo seu comportamento e a responsabilidade de falar a verdade dentro do vestiário.

Luciano Barros Lopes – O que fazer para não deixar o grupo se “acomodar” em 2016 como aconteceu em 2013?
Tite – Essa pergunta sobre 2013 você vai me desculpar, mas não tem sentido. Em 2011, depois que conquistamos o Brasileiro, me perguntaram se o time iria se acomodar e nós fomos campeões da Libertadores em 2012. Aí, vieram me perguntar se o time iria relaxar e ganhamos o Mundial. Depois falaram isso novamente e fomos campeões paulista em 2013. Na sequência, ganhamos a Recopa. Não vamos nos acomodar. Aqui no Corinthians procuramos sempre evoluir.

Rogério Vasilian – Como se faz para deixar o time motivado para jogar os dois últimos jogos do Brasileirão?
Tite – Temos desafios a serem batidos e respeito aos outros times que estão precisando dos resultados. Não faço com o outro o que não gostaria que fizessem comigo. Contra o Vasco, nos minutos finais do jogo, o nosso time já era campeão. Eu tenho seis grandes amigos do outro lado e nem por isso os atletas ouviram eu pedir para não atacar. Eu torço pelo Vasco, mas até o último momento a gente procurou o segundo gol. Vamos ser dignos até o final.

Lívia Karina – Como você vai aproveitar suas férias?
Tite – Já pedi para o pessoal da informática pegar os melhores momentos de cada jogo que a gente fez no ano. Vou ficar fazendo churrasco em casa e curtindo alguns jogos emblemáticos que a gente fez para relembrar a temporada.

Cinthia de Paula – Quais são seus planos para 2016?
Tite – Ainda vou sentar com a diretoria, mas o objetivo é manter todos os atletas e poder acrescentar qualidade. Agora eu quero curtir este momento. Como disse o Fábio (Mahseredjian, preparador físico), este momento é único, mágico e extraordinário. É ímpar.

Herick Rocha – Qual o setor em que o Corinthians precisa de mais reforços?
Tite – Temos de evoluir em todos os setores em que a gente puder acrescentar e melhorar. Precisamos ter a ambição de crescimento, ser melhor o ano que vem do que fomos este ano. Aliás, a equipe cresceu surpreendentemente este ano, mais do que eu imaginava. O crescimento individual tem de ser o nosso objetivo. A gente vai procurar peças pontuais, mantendo sempre pelo menos duas opções por posição. Dois jogadores brigando por vaga para elevar o nível técnico do elenco é importantíssimo.

Silvano de França – Há dois anos, no dia 30 de novembro de 2013, dia do meu aniversário, meus sentimentos se dividiam entre gratidão e tristeza. Eu te homenageava no Pacaembu e não me conformava com a sua saída. A sua esposa, Rose, dizia “um dia a gente volta”. Você concorda que o ano sabático te elevou a um nível bem mais alto? Em algum momento daquele período você sentiu que o seu lugar ainda era no Corinthians?
Tite – O sentimento que a minha esposa teve de que a gente iria voltar logo ao Corinthians era dela, não era meu. Confesso que não imaginei que iria voltar tão cedo, sem ter passado por outro clube. Pensei que teria uma trajetória fora e, em outro momento, voltaria. O ano sabático foi um período em que pude dedicar mais tempo para a minha família, aos estudos e para fazer intercâmbio, além de ouvir e ler a mídia. Quando você sai do olho do furacão, enxerga as coisas melhor. Consegui estabelecer contatos diretos com pessoas que eu entendo que têm perfis de liderança de que eu gosto, que foram o Bianchi (ex-técnico do Boca Juniors) e o Ancelotti (ex-técnico do Real Madrid). Os dois são muito parecidos comigo em sua essência e na forma de dirigir as equipes. Fiz reciclagem e mudanças. Tem uma música que diz: Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo. Às vezes eu erro, mas sempre com a ideia de acertar e melhorar.

Daniel Penido – Qual a diferença no futebol jogado no Campeonato Brasileiro em comparação com os campeonatos europeus?
Tite – A estrutura e o aspecto financeiro permitem aos clubes da Europa uma outra realidade. O Barcelona não vende Messi, Neymar e Iniesta porque não precisa de dinheiro. Aqui, não dá para fazer isso. Se o Manchester City, por exemplo, quiser comprar o Renato Augusto, ele vai fazer uma proposta tão alta que uma hora vai levar o jogador. Outro exemplo, Arsène Wenger (técnico do Arsenal) pode olhar todos os jogadores do Brasil e dizer: Eu quero o Jadson. No final das contas, ele vai acabar tirando o Jadson da nossa equipe. É desumano, errado, irreal e injusto fazer comparações. São realidades muito diferentes.

Fernanda Arantes Semaan – Qual a principal deficiência do futebol brasileiro?
Tite – Em termos de organização, existe uma margem muito grande para crescimento. Falo em relação a calendário e situações básicas, como tamanho padrão de gramado. Fico até envergonhado de falar isso. Existe margem de crescimento para técnicos, mídia e torcida.

Luciana Botelho – Quem é o melhor? Messi ou Neymar?
Tite – Hoje é o Messi, mas amanhã eu não sei. O Messi atingiu o seu ponto máximo enquanto que o Neymar está em fase de crescimento e ascensão.

Roberta Melo – Qual é o melhor técnico do mundo atualmente?
Tite – Não para dizer quem é o melhor. São gerações diferentes. É injusto comparar porque um tem um tempo de trabalho maior do que o outro. Mourinho e Guardiola são de gerações parecidas. Ancelotti e Capello também são da mesma geração. Gosto do estilo discreto do Ancelotti, mas admiro muito o Jürgen Klopp também. Mourinho e Guardiola são extraordinários, uso muito o trabalho deles, mas não me identifico com eles. Os dois são estrelas, não é o meu perfil.

Juliano Chung – Jogador tem “prazo de validade” por causa da idade? Técnico também tem? Quando um técnico deve parar?
Tite – O prazo de validade do atleta é quando ele não se sentir desafiado, com o olho brilhando para evoluir profissionalmente. Aí, tem de buscar fazer outra coisa na vida. Isso serve também para o técnico, com um aspecto importante: ele deve sair antes se quem comanda o clube não tiver com ele uma relação de confiança. Não adianta brincar de faz de conta.

Analy Cristofani – Assim que se destacou como técnico, era criticado pela postura elegante demais para o futebol. Quem mudou, os críticos ou você?
Tite – Só sei que me mantenho fiel a aquilo que acredito ser a minha forma de ser, mesmo incomodando alguns ou sendo elogiado por outros. A única coisa que eu não admito é uma informação errada, mas opiniões diferentes eu respeito. Tenho o meu estilo e vou ser fiel a ele.

Thiago Vanio – Qual é o seu maior ídolo no futebol?
Tite – São dois, Zico e Zidane. Um eu não conheço pessoalmente, que é o Zidane. Mas o admiro pela maestria, fantasia e criatividade. O Zico, na minha geração, representava tudo isso dentro e fora de campo.

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