Estadão

Trilogia de Kleber Montanheiro põe a pandemia no palco

Com Nossos Ossos, o diretor paulistano Kleber Montanheiro começa uma transição entre a paralisação pandêmica e os festejos dos 25 anos de sua Companhia da Revista, grupo responsável por duas dezenas de espetáculos que fundem a crônica social e o universo musical. Nossos Ossos, adaptação de Daniel Veiga para o romance de Marcelino Freire, é a primeira parte da trilogia Conexão São Paulo – Pernambuco, que levará ao palco mais duas peças em torno das temáticas nordestinas, da imigração e da causa LGBT+.

São elas Tatuagem, versão do filme de Hilton Lacerda, e Dois Joãos, uma ficção sobre o poeta João Cabral de Melo Neto e um personagem batizado de João da Silva. Montanheiro há alguns anos vem sendo contaminado pela efervescência nordestina e acompanha com entusiasmo a produção de amigos e conhecidos, como Lacerda e Marcelino. "Toda vez que viajo para Recife ou Salvador volto com a sensação de que ainda vou morar lá", afirma.

No começo do confinamento, o artista reviu pela terceira ou quarta vez, nem se lembra, o longa Tatuagem, que mostra um grupo teatral em confronto com o moralismo da ditadura militar, e entendeu que o negócio era focar em Pernambuco. "Mas imagino Tatuagem no palco como uma grande festa, muita gente em cena, algo bem dionisíaco e, por causa da pandemia, entendi que, antes disso, precisaria de uma peça em que eu seguisse protocolos de segurança." Foi quando caiu em suas mãos o livro de Marcelino, de 2014. Montanheiro percebeu que estava diante da obra inaugural da trilogia sobre a ponte Pernambuco-SP.

"Nossos Ossos trata do nosso sentimento atual, precisamos fazer todos os esforços para enterrar os nossos mais de 600 mil mortos", justifica o diretor. "Tenho atravessado períodos difíceis, perdi a minha mãe, acumulei uma dívida de 100 mil reais de aluguel da sede da companhia, então vi que só me salvaria botando a cabeça para funcionar."

As pendências do aluguel do Espaço Cia. da Revista, na Alameda Nothmann, foram zeradas em abril e é lá que o espetáculo cumpre temporada aos sábados, às 19h e 21h30, e domingos, às 19h, até 12 de dezembro, com ingressos a R$ 40.

<b>EM 2022</b>

Pela previsão de Montanheiro, Tatuagem estreia em maio e a trilha trará 22 músicas compostas por Assucena Assucena, do grupo As Baías. Dois Joãos começa em setembro, com dramaturgia de Marcelo Marcus Fonseca. A peça vai mostrar o destino de dois homens que pegaram o mesmo trem no Recife, com a ambição de uma nova vida no Sudeste.

O futuro escritor João Cabral de Melo Neto seguiu para o Rio, rumo ao reconhecimento, enquanto João da Silva, releitura de Severino, de Morte e Vida Severina, desembarcou em São Paulo e terminou os dias como morador de rua. Composições de Gonzaguinha embalam a trilha. "Queremos conflitar a obra do poeta e a de Gonzaguinha, usando as canções políticas para contar a história de João Cabral e as emocionais para João da Silva." As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b>

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