Trump usa ONU como palanque e Xi Jinping responde com meta ambiental ousada

Os líderes das duas maiores potências globais discursaram nesta terça, 22, na abertura da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York. Enquanto o presidente americano, Donald Trump, usou a fala como palanque para sua campanha à reeleição, seu colega chinês, Xi Jinping, prometeu uma agenda ambiental ousada, reduzindo as emissões de carbono até a China atingir a neutralidade, em 2060.

Em discurso semelhante ao adotado em eventos eleitorais, Trump usou seu tempo para atacar a China e defender a política externa nacionalista de seu governo. No dia em que os Estados Unidos registraram 200 mil mortes por covid-19, o presidente culpou os chineses pela pandemia.

"A ONU precisa responsabilizar a China por suas ações", disse o americano, que voltou a se referir à doença como um "vírus da China", terminologia que incomoda o governo de Pequin. "Nos primeiros dias do vírus, a China suspendeu as viagens domésticas, mas permitiu que voos partissem do país e infectassem o mundo", disse Trump.

Pressionado pelos números desastrosos da pandemia e pelas pesquisas que mostram seu adversário Joe Biden à frente, Trump escolheu a China como alvo quando precisa se defender de sua resposta ao vírus. Cerca de 60% dos americanos desaprovam a resposta do governo ao coronavírus, segundo média de pesquisas do site Five Thirty Eight.

Ontem, americano também criticou o país asiático por sua política ambiental, acusando A China de ser um poluidor global. "Aqueles que atacam o histórico ambiental excepcional dos EUA, ignorando a poluição galopante da China, não estão interessados no meio ambiente. Eles só querem punir a América. E eu não vou tolerar isso", disse o presidente a respeito de um tema que ganhou importância na campanha com os incêndios florestais da Costa Oeste.

Sem encontro presencial em Nova York, a Assembleia-Geral deste ano foi toda virtual, com discursos gravados. Curiosamente, o presidente chinês, que falou logo após Trump, também tocou na questão ambiental e surpreendeu, como uma agenda audaciosa e falando em "revolução verde".

"A raça humana não pode ignorar indefinidamente os avisos da natureza", disse Xi, que afirmou que o Acordo de Paris, de 2015, era o "mínimo" necessário para proteger a Terra. "Nossa meta é ter emissões máximas de dióxido de carbono até 2030 e atingir a neutralidade de carbono até 2060."

O presidente chinês atacou ainda o que chamou de "mentalidade de guerra fria" e disse que posições ideológicas não são a solução para o problema de nenhum país, menos ainda a resposta aos desafios comuns da humanidade – sem citar os EUA diretamente. "Qualquer tentativa de politizar ou estigmatizar esse assunto (pandemia) deve ser rejeitada", afirmou.

A resposta ao presidente americano ficou a cargo do embaixador da China na ONU, Zhang Jun. "Enquanto a comunidade internacional está lutando contra a covid-19, os EUA estão disseminando um vírus político na Assembleia-Geral. Tenho de enfatizar que o ruído dos americanos é incompatível com a atmosfera da Assembleia", disse Jun.

Trump e Xi também adotaram posições opostas ao tratar da colaboração entre as nações. Enquanto o americano defendeu o nacionalismo, o chinês pediu um mundo mais multilateral. "Por décadas, as mesmas vozes cansadas propuseram as mesmas soluções fracassas, perseguindo ambições globais às custas do seu próprio povo. Mas somente quando você cuida dos próprios cidadãos é que encontrará uma base verdadeira para a cooperação", disse Trump.

<b>Diferenças</b>

Na avaliação de Elaini Silva, doutora em direito internacional pela USP e professora do mestrado da PUC-SP, a diferença nos discursos de Trump e Xi refletiu o espaço dos dois países na geopolítica global. A fala nacionalista de Trump, segundo ela, é a expressão de um país que tem perdido a posição hegemônica no mundo. "Trump falou muito mais para o público interno e não usou o espaço da ONU para apresentar um projeto de mundo ou um ideal a ser alcançado", afirmou.

Já o discurso de Xi deixou claro o futuro que a China vislumbra para a ONU. "O líder chinês desconsidera praticamente a existência dos EUA enquanto inimigo. Ele foca na experiência do que foi conquistado e construído institucionalmente e apresenta o plano da China para a ONU", disse Eliani.
As informações são do jornal <b>O Estado de S. Paulo.</b>

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