Variedades

Uma lenda da ópera em aulas e no palco

O nervosismo da soprano de 22 anos é visível. Ela sobe ao pequeno palco da Sala Dinorah do Carvalho, anexo do Theatro São Pedro, rodeada por seus colegas de academia de canto. Começa a interpretar a ária da ópera Giulio Cesare, de Händel. Mas o olhar não sai da senhora de preto, cabelos loiros amarrados para trás, sentada a poucos metros de distância. Poucos compassos depois, é interrompida: a pronúncia das palavras não está correta. Mais adiante, a questão é a expressão. Mais uma vez, mais uma vez. Seria cruel se a cada uma delas, a voz não soasse diferente, mais concentrada, enchesse a sala com mais segurança. “Grazie! Próximo.”

O nervosismo não é fruto do acaso. A senhora de preto é a soprano Katia Ricciarelli, uma das lendas vivas da ópera na segunda metade do século 20. Queridinha de Herbert von Karajan, trabalhou com todos os grandes regentes de seu tempo, em todos os principais palcos líricos do mundo. Aos 70 anos, ela desembarcou esta semana em São Paulo, para ser jurada do Concurso de Canto Maria Callas. Deu masterclasses para jovens cantores brasileiros. E hoje, será homenageada no concerto de abertura da competição, no Theatro São Pedro.

“Há três coisas que um cantor de ópera deve saber”, ela diz, na tarde de terça-feira, em conversa com a reportagem, antes de sua primeira aula. “É preciso ter voz. Em segundo lugar, cérebro; e, em terceiro, coração. Se você não sabe usar a máquina com inteligência, ela não serve de nada. E, claro, humildade. Veja, todos nós erramos. É parte do processo. Mas, se você sabe que quer ser um cantor, vá adiante”, revela.

Para Ricciarelli, a certeza veio aos 8 anos. “Quando comecei a minha carreira, me perguntavam o que eu seria se não fosse cantora. Minha resposta de então é a mesma de hoje: cantora. Não havia outra possibilidade para mim. Eu queria estar no palco.” Sua estreia profissional se deu em 1969 com La Bohème, de Puccini; no ano seguinte, cantou Il Trovatore, de Verdi. Não são dois papéis que, pelas exigências vocais, costumam andar juntos no início de uma carreira. Mas a trajetória de Ricciarelli sempre desafiou limites.

“Eu sempre soube que havia papéis que eu não poderia fazer, como Lady Macbeth, Abigaile, no Nabucco, ou Isolda, no Tristão e Isolda. Mas é por isso que o cérebro é importante. Ele ajuda a encontrar a sua voz dentro dos papéis”, recorda.

A certa altura, Ricciarelli se incomodou com os comentários dos críticos e maestros italianos, que questionavam suas escolhas de papéis. “Eu queria fazer Tosca, não deixavam, Don Carlos, não deixavam, Um Baile de Máscaras, não deixavam. Então fui cantar na Suécia, onde podia fazer o que quisesse, sem ninguém ficar sabendo”, ela conta, e se lembra de uma história com o tenor Plácido Domingo. “Quando estávamos começando e o convidavam para cantar um papel que ele nunca havia cantado, ele mentia, dizia que já tinha feito em Israel, e ninguém tinha como saber. Eu fiz a mesma coisa com o Karajan, diga-se de passagem.”

Karajan tem um lugar especial na memória de Ricciarelli. Ela se lembra com carinho de uma história na qual, diz, o cérebro lhe livrou de uma enrascada. Estava em Verona cantando. Após uma récita, chegou de madrugada no hotel, quando o telefone tocou.

“Disseram que era uma ligação de Salzburgo. O José (Carreras), com quem tive um caso de 13 anos, estava cantando lá. Mas, quando atendi, a voz do outro lado dizia ser o maestro Karajan. Achei que fosse o José me pregando uma peça e quase mandei ele para aquele lugar. Mas não. A soprano Mirella Freni havia resolvido não fazer o ensaio geral da Aida no dia seguinte. E ele havia mandado um avião me pegar em Verona. No dia seguinte cedo, lá estava eu em Salzburgo. E me dei conta de que seria um risco cantar sem ter dormido, cansada. Então tive uma ideia. Disse ao maestro: se eu cantar o ensaio geral, quero cantar a estreia. Ele falou com a Freni. E ela mudou de ideia rapidinho, fez o ensaio, a estreia e eu não precisei cantar.”

Karajan, diz Ricciarelli, dava enorme liberdade ao cantor. “Claudio Abbado era mais perfeccionista. Mas era incrivelmente musical. Foram dois grandes regentes, em uma lista na qual coloco ainda Carlos Kleiber”, ela garante, lembrando ter tido sorte de cantar com grandes nomes de uma geração anterior à sua. Esteve no último Otelo de Mario del Monaco, por exemplo. E dividiu o palco com Franco Corelli. “Eu era jovem e ele já estava mais velho. A voz era impressionante, ainda que a memória não fosse. Em uma Bohème que fizemos juntos, no segundo ato, sentados em uma mesa do Café Momus, ele se virava para mim e dizia: o que diabos eu tenho que cantar agora?” À história se segue um riso largo. “Eu lembro do passado e me divirto. Cantei, vivi, sem rotina, sem arrependimentos. É uma sensação maravilhosa”, acrescenta a soprano Katia Ricciarelli.

CONCURSO MARIA CALLAS
Teatro São Pedro. Rua Albuquerque Lins, 207, telefone: 3667-0499. Hoje (1º/4), às 17h. Ingressos: de R$ 10 a R$ 30.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Posso ajudar?