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‘O Rei Leão’: tempo não foi cruel e musical de 25 anos continua inovador; leia crítica

O tempo não foi cruel com O Rei Leão – em cartaz na Broadway desde sua estreia, há 25 anos, o musical mantém intacta a fórmula que ainda garante sua permanência: a originalidade da concepção. Ao contrário de outros espetáculos que perderam o frescor com o avanço da tecnologia, a montagem que ganha nova versão nacional no Teatro Renault resiste há décadas pela aposta de sua criadora, Julie Taymor, em uma encenação artesanal. Veja aqui o serviço completo e dicas para esticar o passeio.

Assim, máscaras transformam os atores em leões e outros animais são manipulados como marionetes, por meio de figurinos e até mesmo pelo tradicional teatro de sombras. E, em todos os momentos, o mecanismo é visível pela plateia, que identifica os artistas trabalhando, o que pode parecer algo ousado em uma produção da Disney, que sempre preservou a construção da fantasia – mas o desafio imposto por Julie era o de, a partir de um filme de animação muito popular, manter sua essência e transformá-lo em uma montagem teatral.

O público não demora para descobrir a proposta cênica da diretora, pois, logo na cena de abertura, acompanha o desfile de todos os animais (engenhosamente manipulados pelos atores) que começa nos corredores do teatro e termina no palco, culminando com a apresentação do pequeno Simba aos súditos.

O pequeno leãozinho é filho de Mufasa, que governa a floresta. O nascimento do jovem desperta a ira de Scar, irmão do rei, pois diminuem suas chances de assumir a coroa. Assim, bem ao estilo Hamlet, Scar mata Mufasa e acusa Simba de permitir a morte do pai. O rapaz é obrigado a fugir do reino e amadurece a distância, até chegar o momento de voltar e retomar o poder.

O enredo também é notado a partir dos interesses ideográficos de Julie, que ajudam a descobrir a essência do personagem com o predomínio do círculo no musical: desde o enorme sol que invade o palco na primeira cena até a canção principal, Círculo da Vida, passando pelo contorno das máscaras dos personagens. Ainda continua sendo uma excelente representação de como funcionam as gerações, desde o nascimento de novos membros até a morte dos mais velhos que, por sua vez, são novamente substituídos.

Sem estereótipos e com força das atuações
Assim como a montagem que ocupou o mesmo teatro Renault em 2013, a atual não é marcada por estereótipos, pois negaria toda sua essência, e, se a força feminina era inovadora nos anos 1990, agora se torna algo natural e necessário. E ganha força com as atuações de Zama Magudulela como Rafiki, a anciã que anuncia a chegada dos herdeiros, e de Nokwanda Khuzwayo na pele de Nala, a jovem leoa que não se submete ao poder destrutivo de Scar, o rei usurpador. Aqui, Marcelo Octavio tem a chance de exibir seu talento na perfeita composição da vilania.

Toda a imponência de Mufasa ganha contornos na voz poderosa de Drayson Menezzes, enquanto Thales Cesar, como Simba, demonstra como o vigor físico pode também transmitir fragilidade. Por fim, o núcleo cômico, que encanta principalmente as crianças, é muito bem defendido por Rafael Canedo como a ave conselheira Zazu; Lucas Cândido e sua impagável atuação como Timão; e Diego Luri perfeito como o gigante Pumba e seu coração de ouro.

A adesão só é completa com a música, que possibilita o surgimento de um momento quase ecumênico entre a plateia e a história de O Rei Leão – as letras criada por Tim Rice, veterano compositor e autor de clássicos como Jesus Cristo Superstar e Aladdin, são surpreendentemente espirituais, o que é reforçado pelo constante uso do som africano no musical. E, no Brasil, um ganho extra com as versões criadas por Gilberto Gil, responsável por garantir um multiculturalismo original ao espetáculo.

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