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ARTIGO – As perguntas que ainda não foram feitas no Caso Henry

A morte do menino Henry Borel, com apenas quatro anos de idade, chocou o país e é um dos temas que têm dominado os noticiários brasileiros nas últimas semanas. Sem entrar nos detalhes da causa do óbito, afinal, a investigação não cabe a mim e nem a você, leitor, mas, sim, a Polícia Civil do Rio de Janeiro, gostaria de propor algumas reflexões sobre o caso neste artigo

Como psicóloga e fundadora do Núcleo Espiral, que há mais de uma década se dedica à educação contra a prática de violência ou tratamento degradante à pessoa humana, em especial, à criança e ao adolescente, cheguei à conclusão de que algumas perguntas ainda não foram feitas sobre a morte de Henry. Por isso, faço alguns questionamentos e convido o leitor a pensar junto comigo.

A cobertura da imprensa está correta?

Eu trabalho no combate à violência infantil já há algum tempo. O Núcleo Espiral, por exemplo, existe desde 2008. Então, lido diariamente com casos extremamente degradantes relacionados a crianças, que nem sempre culminam em mortes, como, infelizmente, ocorreram com Henry e Isabella Nardoni, morta há 13 anos.

Obviamente, tais óbitos são bastante chocantes. Mas a violência contra a criança não é restrita a casos como esses. Toda vez que um adulto chama o seu filho de burro ou dá um beliscão, ele está, sim, praticando um ato violento que pode ser mais danoso para o desenvolvimento daquela criança do que nós imaginamos.

Estas atitudes não vão matar o filho e nem levar os pais para os jornais, mas deveriam, também, ser discutidas com muita seriedade pela sociedade. E a imprensa pouco faz neste sentido.

Quando os veículos de comunicação repercutem os casos Henry e Isabella Nardoni com tanta ênfase, por um lado, desempenham um papel importantíssimo de alertar as pessoas sobre tais atrocidades, porém, por outro, perdem a oportunidade de abordar outras nuances essenciais no combate à violência infantil. É preciso ter mais debates em relação aos diversos graus de violência aos quais as crianças estão expostas diariamente em nosso país. Os casos Henry e Isabella são apenas a ponta do iceberg.

Quais são os sinais de violência que as pessoas não querem ver?

A segunda reflexão que proponho é em relação aos sinais de violência infantil que os adultos próximos à criança não querem ver. Muitos especialistas estão debatendo sobre como identificar uma criança vítima de um abuso, mas não vi nenhuma discussão referente aos motivos que provocam a omissão dos adultos em casos como o do menino Henry.

Por que as pessoas veem e não enxergam? Essa é uma pergunta importante. Por que alguém vê que uma criança está sendo machucada e faz de conta que não está acontecendo nada ou esconde a situação? Por que pessoas ficam quietas num cenário como esse? Por que muitas vezes existe a tendência de se proteger de uma pessoa poderosa, que é acusada de agredir uma criança?

Tem um fator psicológico mais profundo: as coisas que nós negamos. É o negacionismo. É negar aquilo que está no nosso cotidiano. Muitas vezes, há algo muito evidente na nossa frente que não queremos ver – ou porque aquilo é insuportável para nós (dói demais para a pessoa) ou porque nos leva a encarar nossas próprias atitudes violentas, por menor que elas sejam.

Como analisar a relação entre o poder e o amor?

Há uma frase do psiquiatra Carl Jung que gosto muito: “Onde entra o poder, sai o amor”. Essa frase é emblemática. Em muitos casos, o abusador ou o assassino é detentor de um poder ameaçador, tanto sobre os funcionários, a exemplo de uma babá, como sobre familiares (esposa, filhos, enteados, etc.).

Quando falamos em poder, podemos pensar em diferentes graus, desde o mais sutil até o extremamente opressivo e ameaçador. A Organização Mundial da Saúde (OMS) define grandes agressores como pessoas que impõem o poder a crianças na base da violência, que nem sempre é física. Isso, obviamente, gera prejuízos ao desenvolvimento delas – seja físico ou emocional.

Nesta dinâmica de poder, tudo o que podia ser colorido pelo afeto e amor, esvai-se. Não parece existir amor em tal relação.

O abusador é um monstro fácil de ser identificado?

Não. Isso é um mito que precisa ser desmentido. O agressor, abusador ou assassino não é um monstro identificado facilmente. Essa pessoa, geralmente, está dentro de casa e tem uma feição mansa. Ela não vai mostrar as suas garras o tempo inteiro.

No caso de um estuprador, por exemplo, ele vai aliciando e mostrando afeto pela vítima. É uma pessoa que passa a imagem de ser muito boazinha. Mostra outro lado para esconder a sua real intenção. Tudo o que ele faz é muito bem pensado e intencional.

Por fim, vale frisar que um caso como o de Henry é muito mais complexo do que imaginamos. Não há um entendimento fácil e a análise não pode ser superficial. Além dessas perguntas que deixei no texto, há muitas outras que devem ser feitas e respondidas ao longo da investigação, a partir de um processo analítico feito por especialistas sobre o casal suspeito.

No entanto, também gostaria de dizer que é importante a própria sociedade refletir em relação aos questionamentos deste artigo. São questões fundamentais para o combate à violência infantil e impedir que novas mortes de crianças sejam manchetes dos jornais brasileiros.

Neusa Sauaia é psicóloga e fundadora do Núcleo Espiral

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