A escassez de motoristas profissionais tem freado a expansão do transporte de cargas no Brasil e impacta diretamente Guarulhos, onde o setor está entre os maiores empregadores formais. Levantamento da NTC&Logística aponta que a falta de mão de obra qualificada é hoje o segundo principal entrave ao crescimento da atividade no país.
Escassez é o segundo maior obstáculo ao crescimento
Segundo a pesquisa nacional da entidade, 28,1% das empresas entrevistadas apontaram a falta de motoristas como fator limitador para ampliar operações. O problema só ficou atrás da “piora do mercado interno” (40,7%) e superou as “dificuldades de acesso ao capital” (17%).
O transporte rodoviário é altamente dependente de mão de obra, e os motoristas representam 19,5% dos custos do setor. Apesar do cenário desafiador, 92,6% dos empresários afirmaram que pretendem investir em treinamento e capacitação em 2026. Em contrapartida, 61,5% disseram não planejar renovação de frota no próximo ano.
Transportadora de Guarulhos investe em incentivos
Em Guarulhos, a West Cargo, instalada no Parque Industrial do Jardim São Geraldo, tem adotado estratégias para atrair e reter profissionais. A empresa oferece salários acima da média do mercado e remuneração variável baseada em critérios de direção segura, monitorados por telemetria, além de metas de economia de combustível.
De acordo com o diretor da empresa, Luigi Rosolen, o programa pode elevar os ganhos dos motoristas em cerca de 10%. A iniciativa também contribui para reduzir acidentes e custos operacionais, além de melhorar as condições de segurança dos trabalhadores.
Apesar disso, Rosolen admite dificuldades tanto para reter profissionais experientes quanto para atrair novos interessados. Segundo ele, a crise começou há aproximadamente uma década. “Antes, a profissão passava de pai para filho. Hoje, muitos motoristas não querem que os filhos sigam a carreira”, afirma.
Concorrência com aplicativos e mudança cultural
Na avaliação do empresário, o crescimento do trabalho como motorista de aplicativos contribuiu para a mudança no perfil da categoria. Diferentemente do transporte de cargas, que exige longos períodos fora de casa e enfrenta condições de trabalho mais desgastantes, o transporte por aplicativo oferece maior flexibilidade de horário e permanência próxima à família.
Rosolen destaca que melhorias como regulamentação do descanso e avanços na infraestrutura rodoviária ajudaram, mas não foram suficientes para tornar a profissão mais atrativa frente às novas alternativas.
Ele ressalta ainda que a escassez de motoristas é um problema global. A West Cargo atua fortemente em operações ligadas ao Aeroporto Internacional de Guarulhos e mantém contato com transportadoras de outros países. Segundo o diretor, empresas dos Estados Unidos, Espanha e outras nações relatam o mesmo desafio.
Setor representa quase 10% dos empregos formais na cidade
O impacto da crise é relevante para a economia local. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados mostram que Guarulhos registrava, em janeiro deste ano, 401.117 trabalhadores com carteira assinada.
Desse total, 39.714 atuavam no transporte terrestre de cargas — o equivalente a quase 10% do estoque de empregos formais no município.
A combinação entre alta demanda logística, posição estratégica da cidade e dificuldade de reposição de mão de obra coloca o setor diante de um desafio estrutural, com reflexos diretos sobre o crescimento econômico local.



