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Violência sexual na internet já atinge 20% dos adolescentes brasileiros

Violência sexual na internet já atinge 20% (Foto: Reprodução)
Violência sexual na internet já atinge 20% (Foto: Reprodução)
Relatório do UNICEF aponta que 1 em cada 5 adolescentes brasileiros sofreu violência sexual facilitada por tecnologia no último ano

Um em cada cinco adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos foi vítima de algum tipo de violência sexual facilitada por tecnologias digitais no período de um ano. O dado representa cerca de três milhões de jovens no país e integra o relatório Disrupting Harm in Brazil, divulgado nesta quarta-feira (4) pelo UNICEF, em parceria com a ECPAT International e a Interpol, com financiamento da Safe Online.

O estudo investigou experiências de abuso e exploração sexual envolvendo o uso de meios digitais para aliciamento, extorsão, produção ou disseminação de conteúdos íntimos, tanto exclusivamente no ambiente virtual quanto combinados com situações presenciais.

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Violência ocorre principalmente nas redes sociais

Em 66% dos relatos, a violência aconteceu apenas em meios digitais, especialmente por redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de jogos online. O Instagram e o WhatsApp aparecem entre as ferramentas mais utilizadas pelos abusadores para abordar as vítimas.

Segundo a especialista em Proteção Contra as Violências do UNICEF no Brasil, Luiza Teixeira, o percurso mais comum começa com a aproximação em perfis públicos, seguida da criação de vínculo de confiança. Após esse estágio, os agressores costumam migrar para plataformas de conversa fechadas, onde se sentem mais seguros para praticar o abuso ou a exploração.

Exposição a conteúdo sexual é a ocorrência mais frequente

A violência mais recorrente, relatada por 14% dos entrevistados, foi a exposição a conteúdo sexual não solicitado. De acordo com o relatório, essa prática pode ser usada como estratégia para gradualmente habituar a vítima e facilitar o avanço dos abusos.

Outras situações apontadas pela pesquisa incluem:

  • 9% receberam pedidos para enviar imagens íntimas;

  • 5% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens;

  • 4% sofreram ameaças de divulgação de conteúdo íntimo;

  • 4% receberam propostas de conversas de cunho sexual;

  • 3% tiveram imagens íntimas compartilhadas sem consentimento;

  • 3% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de encontros;

  • 3% tiveram imagens manipuladas com uso de inteligência artificial;

  • 2% foram ameaçados ou chantageados para realizar atos sexuais.

Agressores conhecidos e silêncio das vítimas

Em 49% dos casos, a violência foi cometida por alguém conhecido da vítima, como amigos, familiares, namorados ou pretendentes. Entre esses casos, 52% tiveram o primeiro contato online, enquanto 27% foram abordados inicialmente na escola e 11% em suas próprias casas.

O levantamento também revela que um terço das vítimas não contou a ninguém sobre o ocorrido. As principais razões foram vergonha, medo de não serem acreditadas, desconhecimento sobre onde buscar ajuda e receio diante de ameaças feitas pelo agressor.

Entre aqueles que relataram o caso, 24% procuraram amigos, 12% recorreram à mãe ou outra mulher cuidadora e 9% buscaram o pai ou figura masculina semelhante.

A pesquisa aponta ainda que 15% das vítimas não sabiam que as situações configuravam crime e 12% consideraram que o episódio não era “grave o suficiente” para denúncia, o que, segundo o UNICEF, evidencia a naturalização da violência online.

Uso intenso da internet amplia vulnerabilidade

O acesso à internet é praticamente universal entre os adolescentes entrevistados. Cerca de 45% afirmaram poder utilizar a rede sem restrições, enquanto 12% disseram ter limitação imposta pelos pais e 14% pelos professores.

Com o uso frequente, 37% relataram exposição acidental a conteúdo sexual, principalmente por meio de publicações em redes sociais e anúncios.

Recomendações para prevenção e enfrentamento

O relatório apresenta orientações para diferentes setores da sociedade:

Governo e Sistema de Justiça

  • Fortalecer o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente;

  • Padronizar protocolos de atendimento centrados nas vítimas;

  • Atualizar leis diante de tecnologias emergentes;

  • Enfrentar vulnerabilidades que ampliam riscos.

Famílias e cuidadores

  • Promover diálogo, confiança e escuta ativa;

  • Oferecer informação e orientação;

  • Fortalecer a educação sobre consentimento e autonomia corporal.

Escolas

  • Integrar educação sobre proteção digital;

  • Capacitar profissionais para identificar e responder aos casos.

Setor de tecnologia

  • Implementar salvaguardas eficazes;

  • Ampliar a cooperação entre plataformas digitais.

Sociedade

  • Divulgar canais de denúncia seguros e acessíveis;

  • Promover cultura de proteção e responsabilidade coletiva.

Especialistas destacam que o enfrentamento da violência sexual online depende do diálogo constante com crianças e adolescentes e do acolhimento adequado às vítimas.