Por Ernesto Zanon – @ernesto_zanon
O mercado de picapes médias talvez seja hoje um dos mais conservadores da indústria automotiva nacional, que tem alguns donos e é considerado por muita gente como território proibido.
Toyota Hilux, Ford Ranger e Chevrolet S10 construíram reputações ao longo de décadas no país, principalmente no agronegócio, no trabalho pesado e nas aplicações severas. Não é um espaço simples para qualquer nova marca entrar. Volkswagen e Nissan, por exemplo, com Amarok e Frontier, historicamente tiveram dificuldades.
Mas a GWM parece ter entendido rapidamente que tentar copiar exatamente esse perfil talvez não fosse o melhor caminho. E é justamente aí que a nova Poer P30 começa a fazer sentido. A marca chinesa chega ao Brasil carregando um peso importante: a GWM é hoje uma das líderes em vendas de picapes na China, um dos maiores mercados automotivos do planeta.

A linha Poer se tornou um enorme sucesso por lá e agora tenta repetir parte dessa fórmula no mercado brasileiro. Só que a estratégia aqui parece diferente. Em vez de focar exclusivamente em robustez extrema, a GWM aposta muito mais em tecnologia, conforto, sofisticação e experiência de uso.
A Poer claramente mira aquele consumidor que usa a picape não apenas para trabalho, mas também no dia a dia urbano, em viagens e lazer. E talvez um dos pontos mais interessantes esteja justamente no posicionamento de preço.
A Poer chega ao Brasil na faixa dos R$ 240 mil, valor que acaba sendo bastante competitivo diante das versões mais equipadas de rivais como Toyota Hilux, Ford Ranger e Chevrolet S10, que chegam a custar até R$ 100 mil a mais. Principalmente quando se observa a quantidade de equipamentos embarcados e o nível de tecnologia oferecido pela picape chinesa. Ela é muito completa.
Visualmente, ela chama atenção imediatamente. A dianteira é grande, imponente e transmite sensação de força. A assinatura em LED ajuda bastante nessa percepção moderna e o tamanho impressiona ao vivo. São mais de 5,40 metros de comprimento, com cabine ampla e presença forte nas ruas.
Mas o primeiro choque positivo esteja justamente quando se entra na cabine. O acabamento está muito acima daquela antiga percepção que muitos brasileiros ainda possuem sobre carros chineses. O interior tem desenho moderno, materiais agradáveis ao toque e um nível de sofisticação que surpreende dentro da categoria.

As duas telas digitais dominam praticamente toda a cabine e criam um ambiente bastante tecnológico. A central multimídia de 14,6 polegadas acaba virando um dos grandes destaques visuais do carro. Além disso, a Poer chega extremamente equipada com câmera 360 graus, bancos elétricos, ventilação e aquecimento dos bancos, carregador por indução, chave presencial, freio eletrônico e um pacote bastante completo de assistências à condução. Nesse aspecto, a GWM claramente tenta posicionar a Poer acima de várias rivais tradicionais em percepção tecnológica.
Motor turbodiesel 2.4

Debaixo do capô, a picape utiliza motor 2.4 turbodiesel de 184 cavalos e quase 49 kgfm de torque, sempre associado ao câmbio automático de nove marchas e tração 4×4 com reduzida.
Os números são competitivos dentro do segmento, embora não sejam exatamente revolucionários. Mas o comportamento geral do conjunto agrada. A Poer não entrega aquela sensação típica de picape extremamente bruta. Pelo contrário. O acerto privilegia suavidade, silêncio interno e conforto de rodagem.
O câmbio trabalha de forma bastante suave e o isolamento acústico chama atenção tanto na cidade quanto na estrada. Aliás, é no uso urbano que a Poer encontre sua maior força. A direção leve, o pacote tecnológico e a cabine confortável tornam a experiência menos cansativa do que em algumas concorrentes mais tradicionais. Nem parece ser a grandalhona que realmente é.
E isso conversa diretamente com o novo perfil de consumidor de picape que vem crescendo no Brasil nos últimos anos. Mas existe um obstáculo inevitável: a confiança. A GWM ainda terá um enorme desafio para convencer consumidores mais conservadores, especialmente aqueles ligados ao agro e ao trabalho pesado.

Questões como pós-venda, disponibilidade de peças, valor de revenda e durabilidade no uso severo ainda precisarão ser provadas com o tempo. A própria marca parece saber disso. Tanto que aposta fortemente em garantia longa, equipamentos embarcados e uma experiência mais sofisticada para tentar quebrar essa resistência inicial.
No fim, a Poer P30 chega como uma das picapes chinesas mais interessantes já lançadas no Brasil. Ela pode estar distante de ameaçar diretamente o reinado de Hilux, Ranger e S10. Mas como proposta moderna, tecnológica, confortável e bastante equipada, a GWM definitivamente encontrou um caminho inteligente para começar essa disputa. E isso, num segmento tão fechado quanto o das picapes médias, já representa um enorme passo.

