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OPINIÃO – A prisão sem grades

O medo coletivo é a pena mais longa que o brasileiro cumpre — e ninguém o condenou

Helio Bressan*

Existe no Brasil uma pena que ninguém pronunciou, nenhum juiz assinou e nenhum tribunal revisou. Não consta em código, não tem prazo, não admite recurso. Mas é cumprida, todos os dias, por dezenas de milhões de cidadãos honestos. Essa pena se chama medo. E se transformou na sentença mais longa da vida em sociedade no nosso país.

Em mais de quatro décadas dedicadas à segurança pública, aprendi a distinguir o medo individual do medo coletivo. O primeiro tem rosto, causa e data — é o medo da vítima na delegacia. O segundo é mais grave: já tomou o rosto de uma nação inteira. Não pede licença para entrar. Não chega depois de um crime. Instala-se antes — como pressuposto, como cálculo silencioso, como segunda natureza.

É o medo que faz a mãe escolher a escola pela rota, e não pelo ensino. Que faz o comerciante decidir o horário de fechamento pelo movimento da rua, e não pela demanda do cliente. Que faz famílias inteiras planejarem a vida em torno daquilo que evitam, e não daquilo que desejam. Quando milhões fazem isso simultaneamente, o país inteiro se reorganiza ao redor desse receio. E ninguém votou nada disso.

A verdadeira prisão do Brasil não está nos presídios superlotados. A verdadeira prisão é o medo. O cidadão de bem se trancou voluntariamente atrás das grades, enquanto o criminoso passou a circular livremente pelas ruas, pelas praças, pelos parques. Invertemos a lógica civilizatória: quem cumpre as regras vive como prisioneiro do próprio bairro; quem as viola transita com mais liberdade do que quem as respeita.

“Construímos muros cada vez mais altos para nos proteger. Mas esquecemos que, quando você constrói um muro muito alto, você não está apenas deixando o bandido do lado de fora. Você está se trancando do lado de dentro.”

O fenômeno mais grave, contudo, não é o medo em si. É a normalização do medo. É o instante em que o cidadão para de reconhecer que vive em estado de alerta — porque o alerta virou seu modo padrão de existir. O medo deixa de ser reação e vira herança. Vira cultura. E cultura, com o tempo, vira destino.

Insisto, há anos: segurança pública não é apenas polícia, viatura ou estatística. Segurança pública é paz de espírito. É a condição civilizatória mínima que permite a uma família simplesmente existir, sem o cálculo permanente do risco no fundo do pensamento. Devolver ao brasileiro o direito de viver sem medo é a maior dívida que este país tem com seu próprio povo. Enquanto não a quitarmos, continuaremos cumprindo, em silêncio, a pena mais longa de todas.

Helio Bressan é delegado de polícia, com mais de quatro décadas de atuação em segurança pública.