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Opinião – A violência entre o dado oficial e a realidade oculta

O Brasil acaba de receber os dados do Atlas da Violência 2026, e a primeira reação oficial é de celebração! O país registrou 42.590 homicídios em 2024, a menor taxa em 11 anos (20,1 mortes por 100 mil habitantes). Só que dados crus costumam esconder nuances desconfortáveis. Então, fui olhar para o que os números não mostram com tanta clareza. O relatório revela distorções que deveriam preocupar qualquer gestor público. O conceito central deste ano é o dos “homicídios ocultos”. Trata-se das mortes violentas por causa indeterminada.

Em 2024, o Brasil teve 17.207 mortes desse tipo. Para se ter uma ideia da gravidade, se apenas uma parte dessas mortes for, na verdade, homicídio, o ranking da violência no Brasil muda completamente. São Paulo, que historicamente ostenta a bandeira de estado mais seguro do país, é o epicentro dessa distorção. Oficialmente, a taxa paulista é de 6,6 por 100 mil habitantes. Contudo, o estado lidera o ranking de mortes sem causa identificada. Quando os especialistas do Ipea e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aplicam a correção dos dados, São Paulo perde o posto de líder da segurança para Santa Catarina. O que vemos é que, na prática, fica mais fácil reorganizar estatísticas do que enfrentar a violência real. É a política moderna ajustando o dado para sustentar uma narrativa de eficiência, mas para quem vive em bairros periféricos, a distância entre estatística e realidade é gigantesca.

Mas a violência mais cruel é aquela invisível. 77% das vítimas de homicídio no Brasil são pessoas negras. É o caso, por exemplo, da violência sistêmica, em que a cor da pele ainda é um fator de risco três vezes maior. Quem trabalha na ponta da segurança pública sabe que muitas dessas mortes jamais chegam completamente esclarecidas.

Ainda mais devastador é o dado sobre nossas crianças. A violência sexual representa 45,5% das notificações de agressão contra meninas de 10 a 14 anos. Notícias recentes mostram que o Disque 100 registrou um disparo nesses casos apenas no primeiro quadrimestre de 2026. O mais grave é perceber como a violência contra crianças virou algo quase normalizado no debate público, tratando o abuso infantil como uma nota de rodapé estatística.

A segurança pública não pode ser tratada como uma peça de marketing eleitoral. Quando o Estado falha em determinar a causa de 17 mil mortes violentas, ele não está apenas sendo ineficiente. Ele está sendo cúmplice do silêncio. Celebrar a queda dos homicídios sem enfrentar a explosão das mortes “indeterminadas” e a barbárie contra crianças e negros é uma forma de cinismo institucional. Se não conseguimos sequer nomear a causa das mortes, como pretendemos evitá-las? Sem transparência nos dados, qualquer sensação de segurança é frágil.