Alessandra Zanchetta*
No caminho para o trabalho, o aplicativo de trânsito já escolheu sua rota. A playlist do streaming foi montada por um algoritmo que conhece seus hábitos melhor do que você. Nas redes sociais, é a máquina que decide quais notícias e opiniões vão aparecer na sua tela. Sem perceber, grande parte das nossas escolhas diárias já é guiada pela inteligência artificial — e é nesse terreno silencioso que os robôs começam a redefinir quem somos.
Chatbots oferecem conselhos, simulam empatia e até se tornam “namorados virtuais”. Para muitos, são companheiros perfeitos. Mas psicólogos alertam: essa fuga para interações sem conflito pode reduzir a tolerância às frustrações e enfraquecer os vínculos reais.
A multiplicação de personas digitais fragmenta a individualidade. Ao mesmo tempo, a dependência de modelos de linguagem padroniza a forma de escrever e falar, levantando o risco de uma sociedade cada vez mais homogênea e menos criativa.
Estudos mostram que jovens recorrem à IA para desabafar em silêncio, sem contar a ninguém. O resultado é isolamento social, ansiedade de desempenho e até o chamado “luto tecnológico”, quando robôs recriam pessoas falecidas e alteram o processo natural de superação da perda.
Uma revisão publicada em Acta Psychologica (2026), intitulada “Digital companionship: The interplay of conversational AI, loneliness, social anxiety, and quality of life among young adults”, confirma que o uso de chatbots está diretamente associado ao aumento da solidão e da ansiedade social entre jovens adultos. Os pesquisadores alertam que a dependência emocional de sistemas inteligentes pode substituir vínculos humanos e comprometer o desenvolvimento saudável das relações.
Pesquisadores cunharam o termo “sedentarismo cognitivo” para descrever a atrofia mental causada pela dependência da IA. Um estudo da Universidade Carnegie Mellon, em parceria com a Microsoft, revelou queda no pensamento crítico e menor atividade cerebral em áreas ligadas à memória e à análise complexa. Psicólogos alertam ainda para o empobrecimento da linguagem: textos prontos e automáticos reduzem vocabulário e dificultam a formulação de ideias próprias.
Pesquisas recentes reforçam esses alertas. Exames de neuroimagem (fMRI e EEG) mostram que estudantes que delegam tarefas à IA apresentam redução da atividade em regiões do cérebro ligadas à memória de longo prazo, criatividade e raciocínio crítico. Segundo revisão publicada no Journal of Clinical Medicine (2025), o uso excessivo de sistemas inteligentes pode diminuir a plasticidade cerebral — a capacidade de criar novas conexões sinápticas —, tornando o pensamento mais automático e menos reflexivo. Em outras palavras: quanto mais dependemos da IA, menos o cérebro é estimulado a pensar por conta própria.
A relação dos jovens com a IA é ambivalente. De um lado, 62% afirmam que ela economiza tempo no trabalho. De outro, 68% da Geração Z temem perder seus empregos para algoritmos nos próximos cinco anos. O entusiasmo convive com a insegurança, alimentando altos níveis de ansiedade sobre o futuro. Esses dados vêm do relatório global Ipsos AI Monitor, que analisou como diferentes faixas etárias lidam com a inteligência artificial.
Governos já tratam o tema como questão de saúde pública. No Brasil, o ECA Digital entrou em vigor em 2026, impondo verificação etária e supervisão parental. Projetos de lei buscam proibir algoritmos de rolagem infinita e mecanismos de dependência psicológica. E a ONU e o UNICEF pressionam por regras globais que protejam dados biométricos e perfis de crianças.
Enquanto isso, especialistas oferecem recomendações às famílias como usar a IA como tutora, nunca como substituta. Incentivar o diálogo aberto para combater o “segredo emocional” dos jovens que desabafam com robôs e criar o hábito de checar respostas da máquina e cruzar informações em fontes confiáveis.
A inteligência artificial é um caminho sem volta já influencia nossas escolhas diárias — da rota no trânsito à forma como pensamos e sentimos. Agora, a neurociência mostra que ela também molda o funcionamento do cérebro. O desafio é equilibrar inovação tecnológica com preservação da saúde mental, da criatividade e da diversidade humana. Afinal, se os robôs já estão redefinindo quem somos, cabe a nós decidir até onde queremos permitir essa transformação.

Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness


