Artigos

ARTIGO – O Brasil que perde o sono entre a violência, a saúde e a corrupção

Pesquisa Ipsos revela como insegurança, saúde fragilizada e corrupção moldam o estado emocional dos brasileiros — e como a neurociência explica esse país em permanente vigília.
Alessandra Zanchetta

Há noites em que o Brasil parece insone. Não é apenas o calor ou o barulho da cidade que tiram o sono: é o peso invisível das estatísticas. Pesquisa do Instituto Ipsos, realizada em setembro de 2026, mostra que crime e violência lideram as preocupações nacionais (52%), seguidos por saúde (36%) e corrupção política/financeira (35%). É como se o país inteiro dormisse com a porta entreaberta, desconfiado do que pode acontecer. Esse levantamento faz parte do estudo global “What Worries the World”, que mensalmente mede as principais preocupações da população em mais de 30 países.

A neurociência nos ajuda a entender esse cenário. Quando a ameaça é constante, a amígdala cerebral — nosso radar do medo — permanece em estado de alerta. O resultado é um corpo inundado por cortisol, o hormônio do estresse, que corrói o sono e a serenidade. Não é coincidência que tantos brasileiros relatem insônia ou ansiedade: viver em ambientes percebidos como inseguros é como manter o cérebro em vigília permanente.

A saúde, segunda maior preocupação, toca outro ponto sensível: o viés da sobrevivência. O cérebro humano prioriza tudo que ameaça a integridade física. A percepção de hospitais lotados ou de tratamentos inacessíveis ativa circuitos ligados à dor antecipada. Já a corrupção, embora menos imediata, provoca uma reação visceral: o córtex pré-frontal, responsável pelo senso de justiça, se inflama diante da quebra de confiança. É indignação traduzida em neuroquímica.

Mas se a pesquisa revela o que nos aflige, ela também aponta para o que podemos cultivar. Há pequenas práticas que funcionam como antídotos contra esse estado de alerta permanente. O silêncio da respiração consciente, por exemplo, é capaz de acalmar a amígdala e reduzir o cortisol, devolvendo ao corpo a sensação de segurança. O movimento do corpo, seja numa corrida leve ou numa caminhada ao sol, libera endorfina e serotonina, os neurotransmissores que equilibram o peso da ansiedade. A escrita reflexiva, por sua vez, organiza o turbilhão interno, transformando o caos em narrativa e dando forma ao que parecia incontrolável. E, talvez o mais humano de todos os recursos, as conexões sociais: o abraço, a conversa, o encontro que fortalece o sistema límbico e nos lembra que não estamos sozinhos nesse país que perde o sono.

Essas ferramentas não resolvem a violência, não curam hospitais lotados nem eliminam a corrupção, mas oferecem ao cérebro uma chance de respirar. São gestos cotidianos que, somados, podem devolver ao indivíduo — e quem sabe ao coletivo — a capacidade de sonhar em meio à vigília.

O Brasil, como indivíduo coletivo, vive em tensão. Mas a neurociência nos lembra que o cérebro é plástico: pode se adaptar, pode encontrar novos caminhos. Talvez o maior desafio seja transformar preocupação em ação, e ação em esperança. Porque, no fundo, o que tira o sono dos brasileiros é também o que pode despertar sua força de mudança.

Essa é a insônia de um país que ainda sonha.

Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness