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ARTIGO – Quando as máquinas começam a pensar por nós

Entre a genialidade humana e a praticidade dos algoritmos, o desafio do século é não desaprender a pensar.

Alessandra Zanchetta

A tecnologia sempre transformou a forma como usamos o cérebro. Deixamos de decorar números de telefone, passamos a confiar no GPS para encontrar caminhos e nos mecanismos de busca para recuperar informações. Em troca, ganhamos velocidade, praticidade e acesso quase ilimitado ao conhecimento. Agora, a inteligência artificial inaugura uma nova etapa dessa transformação: ela não apenas busca informações, mas também organiza ideias, escreve textos, resume conteúdos e sugere soluções.

A pergunta é inevitável: ao delegarmos cada vez mais tarefas cognitivas às máquinas, o que acontece com nossa capacidade de pensar por conta própria?

Durante minha formação em Neurociência na PUC-PR, estudei as pesquisas e reflexões do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, uma das maiores referências mundiais no estudo do cérebro. Seu alerta não está relacionado a máquinas que se tornam humanas, mas à possibilidade de os humanos dependerem tanto da tecnologia que acabem reduzindo o exercício de habilidades essenciais como análise crítica, criatividade e reflexão.

A preocupação não é infundada. A inteligência artificial já amplia a produtividade, acelera pesquisas científicas, democratiza o acesso ao conhecimento e apoia profissionais em áreas que vão da medicina à educação. O desafio não está na tecnologia em si, mas na forma como a incorporamos ao nosso dia a dia.

A neurociência mostra que o cérebro fortalece as conexões que utiliza com frequência e enfraquece aquelas que permanecem em desuso. É nesse contexto que Nicolelis utiliza a expressão “zumbis digitais”: uma sociedade cada vez mais dependente de algoritmos e respostas prontas, com menos disposição para questionar, criar e refletir.

As evidências científicas começam a caminhar na mesma direção. Um estudo realizado em 2025 pelo MIT Media Lab mostrou que participantes que escreveram com auxílio de inteligência artificial tiveram mais dificuldade para recordar e explicar o próprio texto do que aqueles que realizaram a tarefa sem a ferramenta. Os pesquisadores chamaram esse efeito de possível “dívida cognitiva”, resultado da transferência de parte do esforço intelectual para os algoritmos.

Na mesma direção, um estudo realizado por pesquisadores da Carnegie Mellon University e da Microsoft Research concluiu que a confiança excessiva em ferramentas de IA pode reduzir o pensamento crítico, diminuindo o esforço dedicado à avaliação das respostas geradas pelos sistemas.

O mecanismo por trás disso não é novo. Assim como o GPS reduziu a necessidade de construirmos mapas mentais dos lugares, a IA pode reduzir o esforço envolvido em etapas importantes do raciocínio. A diferença é que agora não estamos apenas delegando informações ou orientações. Estamos delegando partes cada vez maiores do próprio processo de pensar.

O paradoxo é evidente: nunca tivemos acesso a tanta informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão necessário desenvolver discernimento. Em uma época marcada pela velocidade, pensar tornou-se quase um ato de resistência.

Outro desafio é distinguir o real do artificial. Textos, imagens e vídeos produzidos por algoritmos estão cada vez mais convincentes. A desinformação ganha escala e desafia instituições, profissionais e até a própria ciência.

Mas seria um erro interpretar esse debate como uma crítica à inovação. A própria trajetória de Nicolelis demonstra o contrário. Seu trabalho ajudou a desenvolver tecnologias capazes de conectar cérebro e máquina, ampliando perspectivas de tratamento para pessoas com lesões medulares e doenças neurológicas.

A questão, portanto, não é quanto a inteligência artificial será capaz de fazer. É quanto continuaremos dispostos a fazer por nós mesmos.

Ainda escrevemos para compreender melhor uma ideia ou apenas para produzir mais rápido? Continuamos lendo para refletir ou apenas para consumir informação? Questionamos respostas ou simplesmente as aceitamos?

A criatividade nasce da dúvida, do esforço e das conexões inesperadas construídas ao longo da vida. Nenhum algoritmo viveu nossas experiências, nossos afetos ou nossos aprendizados. É dessa singularidade que surgem as ideias verdadeiramente originais.

O futuro será cada vez mais acompanhado por inteligências artificiais. E isso não precisa ser um problema. Mas há uma condição indispensável para que essa parceria seja saudável: não abrir mão daquilo que nos torna humanos.

Pensar exige tempo. Criar exige esforço. Refletir exige coragem.

Em um mundo fascinado pela velocidade das respostas, talvez a habilidade mais valiosa do século XXI seja preservar a capacidade de fazer perguntas. Afinal, máquinas podem oferecer soluções. Mas continuam sendo os seres humanos que atribuem significado a elas.

Por Alessandra Zanchetta, jornalista e especialista em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness